A República dos vazamentos
O Brasil, país criativo, coleciona apelidos para si mesmo com a devoção com que outros povos colecionam vitórias.
Já escrevi aqui sobre a “República da Atenção” — aquela em que capturar o olhar, com verdades ou mentiras, é o que importa.
Acrescento uma expressão que faltava: a “República dos Vazamentos”.
Brasília não é uma caixa d’água com furos.
É uma caixa d’água projetada com furos, cujos escoamentos podem ter destinatário e horário nobre.
Pelas aberturas escorrem investigações sigilosas, disputas entre ministros, mensagens de aplicativos e boatos plantados com o esmero de quem cultiva orquídeas.
Vazar, na capital, é uma forma refinada de conversa.
E os que hoje se indignam com a torneira aberta amanhã estarão, discretamente, pedindo emprestada a chave.
Aliás, entre muitos, a conversa privada por telefone já é considerada pública.
Vale lembrar que a Operação Lava-Jato deu grande impulso ao uso do WhatsApp para conversas telefônicas por ser criptografado.
“Brasília é uma caixa d’água feita com furos, cujos escoamentos podem ter destinatário e horário nobre” Continua após a publicidade Convém fazer uma distinção que a indignação seletiva costuma dispensar.
Há o vazamento de interesse público — o que expõe o que o poder queria esconder do cidadão e que a imprensa tem o dever de apurar.
E há o vazamento estratégico, com destinatário certo e cronograma calculado, que serve para desgastar rivais, proteger aliados ou influenciar decisões.
Tratá-los como iguais é o método preferido de quem sabe que o cinismo generalizado é a melhor forma de camuflar operações e episódios pouco recomendáveis.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em veja.abril.com.br — o conteúdo pertence a Veja.