O mistério por trás das Bíblias deixadas nas gavetas de quartos de hotéis
Quem abre a gaveta do criado-mudo de um hotel pode encontrar um exemplar da Bíblia. O livro não é colocado ali por exigência legal nem por uma norma internacional da hotelaria.
Na maioria dos casos, os exemplares são fornecidos gratuitamente pelos Gideões Internacionais. Trata-se de uma associação cristã evangélica fundada por homens que viajavam com frequência a negócios. A entidade oferece as publicações, mas cada hotel ou rede decide se aceita ou não mantê-las nos quartos.
A história começou em 1898. Em uma ocasião, os caixeiros-viajantes John Nicholson e Samuel Hill tiveram de dividir um quarto no Central House Hotel, em Boscobel, no estado norte-americano de Wisconsin.
Durante a hospedagem, descobriram que compartilhavam a fé cristã e conversaram sobre a criação de uma associação de empresários e profissionais religiosos. O encontro é registrado em um documento do National Park Service, órgão do governo dos Estados Unidos.
No ano seguinte, Nicholson e Hill uniram-se a William J. Knights e fundaram os Gideões Internacionais. O nome foi inspirado em Gideão, personagem bíblico escolhido para liderar os israelitas contra os midianitas.
A ideia de colocar Bíblias nos quartos surgiu em 1908, no Superior Hotel, no estado norte-americano de Montana. Segundo a história oficial dos Gideões, Archie Bailey, integrante da associação e hóspede frequente do estabelecimento, perguntou à proprietária Edna Wilkinson se poderia deixar uma Bíblia na recepção.
A hoteleira foi além e sugeriu a colocação de um exemplar em cada quarto. Bailey aceitou e, em 9 de novembro de 1908, encomendou as primeiras 25 Bíblias destinadas ao hotel. Como os livros eram oferecidos gratuitamente, a iniciativa se espalhou por outros meios de hospedagem.
A escolha dos hotéis estava relacionada à própria origem dos Gideões. Seus fundadores viajavam constantemente e conheciam a experiência de passar longos períodos longe de casa. Segundo a própria instituição, a intenção era deixar um texto religioso acessível a hóspedes que buscassem conforto ou orientação espiritual. Com o crescimento das viagens rodoviárias e dos motéis nos Estados Unidos, a Bíblia acabou incorporada à cultura hoteleira do país.
A historiadora Lori Anne Ferrell, à AP News, relacionou a expansão dos exemplares ao desenvolvimento das estradas e à popularização do automóvel. A organização estima que "um único exemplar da Palavra de Deus em um quarto de hotel ou motel tem o potencial de impactar até 2.300 vidas durante seus seis anos de vida útil".
O cálculo, porém, é da própria entidade, que não apresenta publicamente a metodologia utilizada.
Embora a imagem da Bíblia na gaveta seja conhecida mundialmente, a prática nunca foi obrigatória. A maior parte das redes permite que os proprietários ou operadores de cada hotel decidam se desejam manter publicações religiosas nos quartos. Alguns estabelecimentos deixaram de oferecer os livros diante das mudanças no perfil dos hóspedes e da busca por uma abordagem que contemple diferentes religiões e crenças. Outros mantêm textos religiosos disponíveis apenas mediante solicitação.
A Marriott é uma das exceções mais conhecidas.
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