Quatro anos e uma jogada
A coluna do Movimento Brasil Popular é publicada quinzenalmente às quartas-feiras. Escrita por militantes do movimento de todo o Brasil, ela aborda temas relacionados à política brasileira, luta ideológica e os desafios da esquerda na organização popular.
Mesmo antes de perder as eleições em 2022 e depois do que viria a ser uma tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, Bolsonaro e sua turma já demonstravam concentrar muita energia no embate com o Supremo Tribunal Federal. Durante seu governo, Bolsonaro atacava abertamente ministros da corte, fazia acusações e dava declarações sobre eventual não cumprimento de medidas indicadas pelo tribunal. Isso fez com que se popularizasse uma aversão de boa parte da população em relação ao STF – como inclusive demonstra a última pesquisa Quaest sobre este tema na semana passada: 56% dos entrevistados dizem “não confiar” no STF e 30% “confiam pouco”.
Essa aversão foi amplamente estimulada, especialmente pós-julgamento e condenação do então ex-presidente Jair Bolsonaro, que se encontra inelegível e preso. Do outro lado, à frente do processo que culminou em sua prisão, estava justamente Alexandre de Moraes, que foi elevado à categoria de grande inimigo, o que de alguma forma levava as pessoas a aproximarem a figura do ministro do presidente Lula, embora Moraes tenha sido indicado por Michel Temer e não guarde ligação alguma com o petista.
Nos últimos quatro anos, esse vem sendo um dos principais motores da narrativa bolsonarista: existe um complô dentro desse sistema apodrecido, em que o governo federal teria uma ligação direta com decisões do STF que enfraquecem e perseguem grupos políticos ligados ao bolsonarismo, ainda que, na prática, o governo Lula 3 (como os anteriores) preze pela autonomia dos órgãos, especialmente os de investigação e justiça, como no caso da Polícia Federal, Ministério Público e STF. A conduta de Lula permanece a de sempre: é preciso investigar a todos, doa a quem doer, especialmente depois de os materiais do processo do caso Master apontarem para nomes que supostamente tiveram contato com Daniel Vorcaro, como Nikolas Ferreira, Alexandre de Moraes e o próprio candidato Flávio Bolsonaro, com um áudio em que solicita 24 milhões de dólares (134 milhões de reais) para pagar gastos com a filmagem sobre o filme “Dark Horse”, que conta a história de seu pai.
O surgimento de nomes da Suprema Corte em documentos gerou um contexto de suspeição que parece o suficiente para que a grande carta do bolsonarismo com o STF ganhe força e dê fôlego para a campanha de Flávio. Não importa se não há investigação, inquérito em andamento, indiciamento ou qualquer apontamento para um eventual processo contra Alexandre de Moraes (que ainda pode vir a acontecer). O que parece ser passível de uso é o ministro indicado por Bolsonaro, André Mendonça, tomar a postura de que é necessário investigar Moraes, tirando o foco de Flávio e girando o holofote para o nome que mais antagonizou com o bolsonarismo nos últimos quatro anos dentro do STF. A suspeita é suficiente; a suspeita já é a prova que eles precisavam.
O pedido de vistas de Flávio Dino, por outro lado, nos causa um efeito colateral político ruim.
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