A economia do reconhecimento
Economista pela UFPE e especialista em gestão pública no Insper. Estudou economia comportamental na Warwick University (Reino Unido) e é associada do Livres
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Em um dia no escritório, um colega perguntou em voz alta se alguém tinha à mão a referência de um estudo. Como eu o havia usado numa coluna para a Folha , ofereci-me para localizá-la, pois sabia que bastaria jogar no Google o nome do pesquisador e o tema do texto. Qual não foi minha surpresa ao encontrar, como primeiro resultado, uma coluna de outro veículo sobre o mesmo assunto e que citava exatamente aquele estudo.
A curiosidade falou mais alto, então cliquei e encontrei o trabalho que procurava acompanhado de outras duas referências encadeadas em uma lógica muito semelhante à que tinha usado na minha coluna. Ainda que não repetisse minhas palavras, o texto reproduzia a forma de relacionar os mesmos estudos ao tema.
Como conhecia o autor, fiquei em dúvida entre escrever-lhe e deixar para lá. Após reflexão, acabei fazendo o que sempre faço: fui pesquisar e escrever a respeito na coluna seguinte.
Em ambientes de trabalho, por exemplo, a apropriação de crédito pode ocorrer de forma mais explícita. Quando um funcionário apresentava uma sugestão e o chefe a acolhia, reconhecendo sua autoria, aumentava a disposição do funcionário para voltar a contribuir. Quando, por outro lado, o chefe aceitava a ideia e a apresentava como própria, quem havia feito a sugestão se sentia menos respeitado, identificava-se menos com o grupo e se tornava menos propenso a se manifestar novamente.
Esse padrão foi identificado no acompanhamento de trabalhadores na China e testado em um experimento nos Estados Unidos por Hana Johnson e coautores . A apropriação, portanto, transfere o mérito pelo que já foi produzido e ainda pode impedir que outras ideias sejam compartilhadas.
No meio acadêmico, ficar sem crédito por uma contribuição não parece ser raro. Em uma pesquisa com 2.660 cientistas, 43% das mulheres e 38% dos homens relataram já ter sido excluídos da autoria, enquanto 49% delas e 39% deles disseram que suas contribuições haviam sido subestimadas. As duas diferenças eram estatisticamente significativas no estudo de Matthew Ross e coautores .
Mesmo quando a autoria é formalmente reconhecida, a incerteza quanto à contribuição de cada pessoa pode gerar efeitos profissionais. Entre economistas, homens tinham chances semelhantes de conquistar uma posição permanente na universidade independentemente de publicarem sozinhos ou em coautoria.
Entre as mulheres, a probabilidade diminuía à medida que aumentava a proporção de trabalhos em coautoria, mesmo após controlar pela qualidade da produção e por outras características observáveis. Dois experimentos confirmaram que estereótipos de gênero interferiam na distribuição do crédito pelo trabalho coletivo, segundo Heather Sarsons, Klarita Gërxhani, Ernesto Reuben e Arthur Schram.
Embora o último estudo não trate de plágio, uma vez que todos apareciam como coautores, mostra que nem mesmo a autoria formal garante uma distribuição clara do mérito.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.