'Ninguém vai dar benefício da dúvida', diz CEO da AZ Quest sobre Lula
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de apresentar medidas concretas de contenção dos gastos públicos para recuperar a confiança dos investidores, afirma Walter Maciel, CEO da AZ Quest. Na avaliação do executivo, o mercado não tem apenas dúvidas sobre a condução da política econômica: já trabalha com a expectativa de que o ajuste fiscal não será realizado.
Cabe ao governo hoje provar que o mercado está errado. Ninguém vai dar o benefício da dúvida. Por quê? Porque não existe a dúvida. Existe uma convicção de que não vai ser endereçado e, aí é a minha percepção, nós vamos caminhar para a dominância fiscal. Walter Maciel, CEO da AZ Quest
A dominância fiscal ocorre quando o desequilíbrio das contas públicas é tão grande que compromete a capacidade do Banco Central de controlar a inflação apenas com a política de juros. Nesse cenário, a preocupação com a dívida pode pressionar o dólar e os preços, mesmo com taxas elevadas.
Maciel atribui essa percepção ao histórico dos governos petistas e às declarações de Lula contrárias à contenção de despesas. Para ele, a reação dos investidores reflete a expectativa de continuidade dessa orientação. "O mercado não está desconfiando dele. O mercado está confiando nele", afirma.
Questionado sobre um possível otimismo exagerado do mercado com Flávio Bolsonaro (PL), Maciel afirma que a valorização dos ativos após o primeiro turno refletiu a expectativa de uma mudança na condução das contas públicas. Segundo ele, os investidores interpretaram as declarações de Lula como um sinal de que o presidente não faria um ajuste fiscal relevante. "Quando ele ganhou o segundo turno, o mercado voltou à estaca em que estava antes. Ou seja, voltou a acreditar que nenhuma medida fiscal importante seria adotada", afirma.
O diagnóstico vem acompanhado de um alerta sobre a atividade econômica. Segundo o executivo, os juros elevados e o endividamento das famílias e empresas ameaçam o consumo e a sobrevivência de negócios menores. A AZ Quest já trabalha com um cenário em que o crescimento econômico de 2027 pode ficar próximo de zero.
A gente já está trabalhando com o PIB de 2027 podendo ser próximo a zero. Walter Maciel, CEO da AZ Quest
Para Maciel, as dificuldades financeiras das empresas ainda não apareceram integralmente nos indicadores econômicos. Ele teme que a pressão sobre os negócios se transforme em queda da demanda, aumento do desemprego e desaceleração mais intensa da economia. "Isso tudo que está acontecendo no mundo microeconômico virá para o mundo macroeconômico em algum momento", afirma.
Na avaliação do executivo, empresas podem melhorar suas operações e ainda assim não conseguir compensar o peso das dívidas. A manutenção de juros reais elevados por um período prolongado pode transformar negócios antes saudáveis em companhias financeiramente fragilizadas.
Maciel descreve uma situação em que a empresa primeiro deixa de amortizar o valor principal da dívida, passa a pagar apenas os juros e, posteriormente, precisa contratar novos empréstimos até para cobrir esses encargos.
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