Anthropic mira US$ 2 trilhões na bolsa. O que falta para ser uma big tech?
Na segunda-feira (26), a Anthropic entregou à SEC (a CVM dos Estados Unidos) o prospecto de sua abertura de capital . A dona do Claude pretende listar as ações na Nasdaq sob o código ANT, com estreia prevista para meados de novembro, e, segundo a imprensa americana, busca levantar até US$ 100 bilhões a um valor entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões, algo próximo ao PIB (Produto Interno Bruto) anual do Brasil. É a primeira vez que um grande laboratório independente de inteligência artificial abre as contas ao público.
Sou cliente (e investidor) da empresa: os modelos dela rodam boa parte da minha infraestrutura de pesquisa. Isso me dá uma visão razoável do produto e nenhuma do balanço. O prospecto é a primeira janela para dentro da estrutura, e ajuda a responder à pergunta que o mercado fará no primeiro pregão: uma empresa avaliada como big tech já é uma big tech?
O crescimento não tem precedente entre empresas desse porte. A receita saiu de US$ 4,6 bilhões em todo o ano de 2025 para US$ 16,3 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026 e, pela indicação do próprio prospecto, ficou perto de US$ 17 bilhões no terceiro trimestre, o que coloca o faturamento anualizado na casa dos US$ 67 bilhões. Cada um dos cerca de 5.300 funcionários responde por US$ 6,6 milhões de receita, marca que, entre as gigantes de tecnologia, só a Nvidia supera.
O prejuízo de US$ 80,7 bilhões no semestre, que estampou as manchetes desta semana, pede uma explicação. Desse total, US$ 72,4 bilhões são a reavaliação contábil de notas conversíveis em ações, a maior parte nas mãos de Amazon e Google: quanto mais a Anthropic vale, mais valem os papéis que serão convertidos, e a diferença entra no balanço como despesa.
A mesma valorização apareceu com o sinal trocado no balanço da Amazon em julho, como um ganho de US$ 53,4 bilhões. Na operação, o segundo trimestre fechou com lucro de US$ 974 milhões, o primeiro dos seis trimestres que o prospecto detalha, e o gasto com computação caiu para menos da metade da receita.
Pelo tamanho, a resposta será 'sim' no dia da estreia. Pela estrutura, prefiro um teste com três perguntas, que Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft respondem com um sim: a empresa é dona do balcão onde vende, é dona da fábrica onde produz e é dona do caixa que financia o próprio crescimento? Nas três, o prospecto da Anthropic ainda se descreve como uma inquilina.
O balcão de vendas: Quase metade da receita do semestre (48%) entrou pelas lojas de nuvem de terceiros: o Bedrock, da Amazon, o Vertex, do Google, e o Foundry, da Microsoft. Por esse acesso, a Anthropic paga pedágio a cada nuvem, e a linha de vendas, marketing e parcerias saltou de US$ 120 milhões para US$ 3,2 bilhões em um ano; as donas dessas lojas são, ao mesmo tempo, suas acionistas e suas concorrentes. O documento fala em "empresas e prosumers", conta cerca de 40 milhões de clientes pequenos e tira três quartos da receita dos 11,9 mil que gastam mais de US$ 100 mil por ano.
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