Amara Moira: Dez anos de Tifanny no vôlei provam que inclusão faz sentido
A CBV decidiu acatar a determinação do COI e proibiu mulheres trans de atuarem nas suas competições de voleibol feminino. Uma decisão feita às pressas, no meio de uma temporada e que tem um alvo específico: a atleta Tifanny Abreu.
Eu não tenho formação para debater se a atleta leva ou não vantagem esportiva ao jogar no vôlei feminino, mas algo me encuca nessa história. São quase dez anos com ela atuando na modalidade no Brasil. Dez anos. Se existem mesmo vantagens (e pode até ser que haja), seria o momento ideal para a CBV apresentar um estudo minucioso provando por A + B esse ponto. Na Política sobre a elegibilidade de atletas para as competições da categoria feminina de voleibol, publicada na sexta passada (14/08/2026), a CBV chega mesmo a afirmar que
O Comitê Olímpico Internacional informou à comunidade esportiva que, entre setembro de 2024 e março de 2026, foram realizados estudos científicos e análise de dados, com foco em aspectos médicos, éticos, jurídicos e de direitos humanos, tendo contado com a consulta e a participação de especialistas de cinco continentes.
Esses foram os supostos estudos que embasaram a mudança do COI, mas onde estão seus resultados? Qual a conclusão a que chegaram? Nada é dito a respeito e a própria CBV não traz informações novas, colhidas nesses dez anos de experiência concreta de inclusão de uma atleta trans nas suas competições. Será essa vantagem tão óbvia, como insistem em repetir? Vou além: ainda que se comprovem vantagens, serão elas incontornáveis ou há algo que se possa fazer para restabelecer a equidade?
A Política de Elegibilidade para Atletas Transgêneros da CBV se baseava exatamente nesse último ponto. Não era uma autorização generalizada, suas regras visavam estabelecer em que condições seria razoável a atuação de uma atleta trans no feminino. E o principal critério era a testosterona: "A atleta deve demonstrar que seu nível total de testosterona no soro foi inferior a 5 nmol/L por pelo menos 12 meses antes da primeira competição".
Seria o critério da testosterona insuficiente? Concluiu-se que 12 meses é pouco? Ótimo, vamos analisar os dados e avaliar que outras determinações podem ser feitas para que a inclusão se justifique. O mundo era um até 15 anos atrás, hoje é outro. Pessoas trans ocupam cada vez mais espaços, não há como retroceder, daí termos que pensar maneiras de incluí-las no esporte. O que aconteceu, no entanto, é outra coisa: após dez anos testemunhando os efeitos práticos dessa inclusão, a CBV decidiu de forma unilateral e inexplicada que, sob nenhuma condição, as atletas trans poderão disputar campeonatos na modalidade feminina.
O significado dessa decisão é claro: reforçar a ideia de que os esportes (sobretudo os de alto rendimento) só podem ser disputados por pessoas cisgêneras. E o apoio massivo que essas medidas recebem me leva a crer que o que está em jogo, mais do que a tal vantagem indevida que Tifanny (e qualquer outra atleta trans) levaria, é o incômodo diante do esfacelamento das noções de "homem" e "mulher".
A impressão que dá é que a CBV, quando autorizou Tifanny a jogar, contava que, em pouco tempo, teria provas eloquentes do desacerto dessa decisão.
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