Quem matou os apelidos?
Durante boa parte do século XX, quase ninguém atravessava a infância brasileira apenas com o nome recebido no cartório.
Havia o apelido inventado pelos irmãos, o diminutivo imposto pela escola, a alcunha nascida de uma façanha, de um tropeço, de uma característica física e capaz de sobreviver por décadas.
Em muitas cidades, perguntar por José da Silva era informação insuficiente.
Era preciso procurar Zeca do Armazém, Pedrinho da Farmácia, o caminhão de Z é de Ana , Pescoço de Mola ou Pé de Prancha , Camburão , Brin quedo do Cão, Arengueiro .
O cartório registrava uma pessoa; a comunidade, com frequência, fabricava outra.
Os apelidos pertencem a uma cultura de proximidade.
Exigem convivência, repetição, memória compartilhada.
Alguns carregam afeto; outros, uma crueldade que a infância distribui sem cerimônia.
Muitos têm uma explicação conhecida apenas por meia dúzia de pessoas.
Um homem pode mudar de cidade, casar, enriquecer, ganhar títulos e cabelos brancos e continuar sendo chamado pelo nome recebido aos onze anos.
Há biografias inteiras comprimidas em duas sílabas.
Quando o nome encolhe A literatura russa compreendeu essa intimidade como poucas.
Primeiro assusta o leitor com sua arquitetura nominal: nome, patronímico, sobrenome, personagens que parecem precisar de passaporte para entrar numa conversa.
Logo a solenidade encolhe.
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