Vício em jogo não é entretenimento
O território digital criou um portal permanente de troca energética, no qual algoritmos e celulares possuem um mapa apurado de nossas vulnerabilidades psicológicas e até biológicas.
Nessa encruzilhada, a proliferação descontrolada das plataformas de apostas — as chamadas bets — deixa de ser mero entretenimento e se revela um problema central de saúde pública e de espoliação econômica.
O vício em jogos ganhou um potencializador poderoso com a tecnologia.
As plataformas são desenhadas para a perda sistêmica, usando notificações e recompensas variáveis como gatilhos calculados para prender a mente num ciclo contínuo de dopamina e frustração.
Quando o valor do aluguel, da escola ou da alimentação é dragado para a nuvem de uma empresa em paraíso fiscal, não se trata de uma escolha livre, mas de uma patologia induzida por uma indústria que lucra com o colapso financeiro das famílias.
Reconhecido pela OMS, o transtorno do jogo afeta diretamente a renda popular.
Esse cenário de descalabro não surgiu por acaso, mas encontrou terreno fértil durante o governo Bolsonaro, que acelerou a liberação e a expansão predatória desse setor sem a devida regulamentação, proteção ao consumidor ou mecanismos de suporte à saúde pública.
Sob o pretexto de um liberalismo irresponsável, a gestão anterior abriu as portas para que empresas operassem com total descontrole no país, negligenciando os riscos sociais evidentes.
O legado dessa omissão deliberada do governo Bolsonaro foi a transferência massiva de recursos das famílias trabalhadoras para conglomerados de apostas, sem qualquer contrapartida social ou arrecadação revertida em políticas públicas de acolhimento.
Ao tratar a proliferação dos jogos de azar como mera oportunidade de mercado, a gestão passada ignorou o impacto devastador na renda e no bem-estar da população mais vulnerável.
Regulamentar não é proibir de forma moralista, mas exercer o poder popular para impor limites severos de depósitos e perdas, restringir a publicidade, proibir a participação de vulneráveis, bloquear plataformas ilegais e estruturar o SUS para o tratamento gratuito da compulsão.
Essa agenda enfrenta a oposição articulada do lobby financeiro das apostas e de setores políticos alinhados, que priorizam o lucro de plataformas estrangeiras em detrimento dos lares brasileiros.
Em 2025, o relatório final da CPI das Bets foi rejeitado por quatro votos a três.
Entre os votos contrários estavam Eduardo Gomes, do PL, e Efraim Filho, do União Brasil.
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