O direito de guardar rancor
Existe uma insistência quase religiosa para que a pessoa ferida perdoe.
Quando alguém nos machuca, logo aparece alguém disposto a explicar que precisamos seguir em frente, esquecer, compreender, dar uma segunda chance, não guardar rancor.
O conselho costuma vir como se fosse uma espécie de sabedoria superior, como se permanecer magoado fosse uma escolha infantil e perdoar fosse necessariamente o sinal de uma personalidade evoluída.
Mas talvez seja preciso desconfiar um pouco dessa ideia, principalmente quando ela é dirigida a quem sofreu e não a quem causou o sofrimento.
Porque existe uma diferença importante entre aconselhar alguém a perdoar e exigir que essa pessoa volte a se relacionar com quem a feriu.
E, muitas vezes, essas duas coisas são colocadas no mesmo pacote.
Dizem para perdoar como se o perdão tivesse de produzir reconciliação, proximidade, intimidade, convivência.
Não precisa.
Uma pessoa pode elaborar uma mágoa, entender o que aconteceu, deixar de alimentar a raiva todos os dias e, ainda assim, não querer aquela outra pessoa por perto.
Isso não é necessariamente incapacidade de perdoar.
Pode ser apenas uma decisão sobre quem merece continuar tendo espaço na sua vida.
Também é preciso falar sobre o poder.
Quem está em uma posição de poder dentro de uma relação costuma ter mais facilidade para definir o que aconteceu, o tamanho do problema e o momento em que ele deveria ser encerrado.
Quem feriu pode dizer que foi sem intenção, que não foi bem assim, que você entendeu errado, que já pediu desculpas, que aquilo aconteceu há muito tempo.
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