O orteguismo matou a Revolução Sandinista (por Hubert Alquéres)
O anúncio de Daniel Ortega de que a Nicarágua não voltará a realizar eleições competitivas representa a certidão de óbito da Revolução Sandinista.
A sentença de morte foi proclamada justamente quando a revolução completa 47 anos da vitória que derrubou a dinastia Somoza.
O movimento que nasceu prometendo democracia e justiça social encerra sua trajetória abolindo o direito que lhe conferiu legitimidade: o voto.
A ironia histórica é devastadora.
A revolução que pôs fim a uma ditadura familiar de quatro décadas terminou reproduzindo muitas das características do regime que combateu.
Antes de 1979, a Nicarágua era praticamente uma propriedade privada do clã Somoza.
Hoje, o país voltou a ser identificado com outra família: Daniel Ortega, sua esposa Rosario Murillo e seus filhos.
Seu poder se estende pelas instituições políticas, pelo aparato estatal e por importantes setores da economia.
A Revolução Sandinista entusiasmou a esquerda latino-americana.
Sua vitória foi construída por uma ampla frente democrática que reunia revolucionários, empresários, intelectuais, setores da Igreja Católica e lideranças liberais que haviam combatido a ditadura somozista.
Ao contrário da experiência cubana, a Nicarágua parecia demonstrar que era possível conciliar reformas profundas com democracia, justiça social com pluralismo político, revolução com liberdade.
Desde o início, porém, conviviam dois projetos.
Um deles procurava construir uma democracia capaz de preservar a diversidade que havia tornado possível a vitória revolucionária.
O outro entendia que a Frente Sandinista, por ter conduzido a luta contra Somoza, deveria exercer uma tutela permanente sobre o Estado e interpretar de forma exclusiva os interesses da revolução.
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