Quando a família de um presidente dos EUA quase governou um pedaço do atual território brasileiro
Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017
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Desde que é presidente, o patriarca Donald Trump incita a sua estimada estirpe familiar a banquetear-se com as prerrogativas e os instrumentos do Estado para prosperarem os seus interesses privados e corporativos.
Nesta economia familiar, o genro Jared Kushner participa de negociações internacionais no Oriente Médio enquanto permanece à frente da Affinity Partners, gestora de investimentos financiada em larga medida por capital de fundos soberanos do Oriente Médio. Coexistem assim, no mesmo indivíduo e com invejável bonomia, o emissário do presidente dos EUA, o genro do presidente e um gestor de fundos de investimento.
É tentador julgar esta promiscuidade americana entre o poder e o proveito como um vício original e exclusivo da era Trump. A tradição é mais antiga e passa pelo Brasil.
No início do século 20, as selvas do Acre eram bolivianas de direito, mas brasileiras de fato, povoadas por multidões que ali extraíam o leite da borracha. O território tinha adquirido enorme valor econômico. Sem capacidade para governar efetivamente a região remota, La Paz decidiu entregar sua administração por 30 anos a um consórcio de investidores estrangeiros, o Bolivian Syndicate, também conhecido administrativamente como Bolivian Syndicate of New York City. Reunia as empresas Cary & Withridge, United States Rubber Company e Export Lumber, além de várias instituições financeiras.
O Syndicate recebeu prerrogativas normalmente reservadas a governos. Poderia administrar receitas, explorar recursos, controlar atividades econômicas e organizar instrumentos próprios de segurança, como manter uma polícia e uma força armada. Um Estado dentro do Estado. Entre os investidores estava William Emlen Roosevelt, banqueiro de Nova York, primo próximo e conselheiro financeiro de Theodore Roosevelt, então presidente dos EUA.
Tal como, no primeiro governo Trump, o conselheiro jurídico da Casa Branca, Don McGahn, se inquietou com a viscosidade que unia os negócios de Kushner às suas funções públicas, também, em 1902, o secretário de Estado John Hay discutiu o caso diretamente com Roosevelt através de uma carta disponível na Biblioteca do Congresso . Escreveu Hay que caso o governo americano acudisse com excessivo zelo ao Bolivian Syndicate e aos seus "very prominent citizens of New York", o Brasil poderia concluir que a empresa não passava de um instrumento do próprio governo americano.
A Bolívia fazia essa leitura. Documentos da época mostram que seu representante em Washington acreditava que os promotores do sindicato poderiam contar com apoio americano se encontrassem resistência. A Bolívia tinha aberto o seu território a um grupo privado estrangeiro porque queria o apoio da República americana na questão do Acre. Esse respaldo implícito era parte do valor do negócio.
Foi justamente isso que alarmou o Brasil. Theodore Roosevelt era, tal como Trump, um diletante da força e um intervencionista convicto.
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