Nova mostra de Ayrson Heráclito mira expansão de uma arte conceitual afro
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O artista Ayrson Heráclito chegou a São Paulo para sua mostra na galeria Simões de Assis diretamente da Alemanha. Longe das salas de aula de graduação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ele aproveita o ano de pós-doutorado para colocar de pé alguns projetos artísticos.
Na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, o projeto em questão era um banquete. Foi uma trabalheira para ele e para o marido, o chef e artista Joceval Santos, que cozinharam com o Ajeum, refeição com comida sagrada do candomblé, em mente. Eles moeram o feijão na mão e foram atrás de camarão em plena Berlim. No fim, entre cânticos de cura, todo mundo saiu da performance do início de agosto feliz e de barriga cheia.
A relação de Heráclito com a comida é longa, como bem mostra a nova exposição "Ayrson Heráclito: Ojú Inú", em cartaz na Simões de Assis até 12 de setembro. Ali, estão expostos alguns dos inventários de 2025 do artista baiano. As séries misturam fotos a objetos e formam sistemas de cura. Há, por exemplo, fotos de pipoca e ovos unidas a caixas de pólvora e de pemba –giz ovalado que se usa para traçar pontos e riscos em cerimônias do candomblé e da umbanda.
São objetos e alimentos com poder de transmutar o ambiente ordinário em espaço de magia, onde homens transitam junto aos orixás. A partir das performances e dos inventários, o público pode experimentar um pouco dessa mágica.
Há, também, "Black Atlantic I", de 2013, uma das obras mais famosas de Heráclito. Dentro de um estojo acrílico, típico de museus, repousa uma garrafinha de vidro cheia de azeite de dendê. Inscritas na garrafa estão as palavras do título da obra, em letras pretas, caixa alta e sem serifa: "BLACK ATLANTIC", ou Atlântico negro. Para ele, essa rota da diáspora africana, marcada pela escravidão, abre um espaço para a "criação e transmissão de saberes ancestrais".
São trabalhos já conhecidos do artista. Heráclito começou sua carreira artística com a pintura. Mas a virada para o projeto de construção de uma arte conceitual afro veio cedo. Ainda na faculdade, em Salvador, ele já se interessava por nomes como Marcel Duchamp, o francês pai do dadaísmo, e Joseph Beuys, alemão envolvido com o movimento fluxos. Ele tinha pouco mais de 20 anos quando decidiu romper com a pintura e apostar na construção de uma arte conceitual afro.
É um projeto que busca deslocar a arte afro-brasileira do estigma histórico de primitivismo ou naif. "O Ocidente demarcou o que seria arte e o que seria artesanato. E a arte é o universo da inutilidade. Qual a utilidade de um Davi de Michelangelo? Nenhuma. Mas um banco ou uma cadeira têm utilidade", afirma.
Para chegar a essa formulação, Heráclito bebeu do historiador americano Robert Farris Thompson, que catalogou nos anos 1970 19 conceitos estéticos africanos a partir de questionários aplicados na Nigéria.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.