Discordar, sim. Descumprir, jamais
Há eleições que decidem quem governará e há eleições que parecem decidir quem somos.
O segundo turno que o país atravessa parece pertencer à segunda espécie.
A escolha entre projetos de governo, que é a matéria ordinária da democracia, converteu-se em algo mais profundo e mais perigoso, uma disputa entre identidades que só se reconhecem na oposição recíproca.
Votar passou a ser declarar pertencimento, e discordar passou a ser vivido como ofensa.
Nesse cenário, é preciso perguntar o que ainda é comum aos brasileiros quando quase tudo parece separá-los.
A resposta que sustento é que o comum existe, tem forma e tem endereço.
Ele está na Constituição de 1988, e não há alternativa democrática fora dela.
Agência Brasil Ulysses Guimarães (1916-1992) Jean-François Lyotard, “simplificando ao extremo”, definiu o pós-moderno como “a incredulidade em relação aos metarrelatos”. [1] O que vivemos hoje, porém, não é propriamente a ausência de narrativas, mas, na verdade, a sua pulverização em narrativas rivais, cada uma com a pretensão de explicar o todo e de reconhecer apenas os seus.
Quando a política se torna a principal fonte de identidade, quem pensa diferente deixa de ser alguém com quem se debate e passa a ser uma ameaça àquilo que se é.
O diálogo não se perde por falta de vontade.
Perde-se porque cada divergência é recebida como negação de reconhecimento, e ninguém conversa com quem parece lhe recusar o direito de existir como é.
Deve-se dizer que numa sociedade plural, jamais houve acordo pleno sobre a vida boa, sobre a fé, sobre a família ou sobre os limites entre o Estado e o mercado.
Por isso, quem promete restaurá-lo promete, na verdade, a vitória definitiva de um lado sobre o outro, e repete por outros meios a lógica que dizia querer superar.
Isso não significa que nada nos seja comum.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.conjur.com.br — o conteúdo pertence a Consultor Jurídico.