Algoritmo ou cérebro: quem define o voto?
A ascensão das mídias sociais e o recente advento da inteligência artificial (IA) generativa inauguraram um intenso debate no seio do Direito Eleitoral e da filosofia política.
Discursos regulatórios, frequentemente imbuídos de um paternalismo tecnofóbico, pressupõem que o eleitor é um agente perfeitamente maleável e passivo, cujas preferências políticas seriam programadas por algoritmos ou desvirtuadas por desinformação sintética.
Sob esse prisma, o controle estatal sobre a circulação de informações é apresentado como salvaguarda indispensável para a higidez democrática.
Fernando Frazão/Agência Brasil Qual a influência da IA na decisão do voto? Todavia, essa premissa regulatória contraria as evidências acumuladas pela ciência cognitiva, pela psicologia social e pela análise empírica de pleitos eleitorais globais.
O processo pelo qual o ser humano define o seu voto é de uma complexidade multifacetada, enraizado em predisposições internas que se sobrepõem, de forma contundente, a estímulos externos.
O presente artigo demonstra, à luz da literatura científica sobre a racionalidade humana e de relatórios empíricos de eleições recentes, que as mídias sociais e as ferramentas de inteligência artificial não são vetores decisivos na definição do voto.
O caminho de escolha do eleitor é predominantemente interior, moldado por vieses de identidade e dinâmicas tribais, o que desmistifica o poder absoluto atribuído aos algoritmos digitais.
Arquitetura cognitiva do eleitor e racionalidade expressiva Para compreender como o eleitor define seu voto, faz-se indispensável analisar a arquitetura cognitiva humana desenhada pelo aclamado psicólogo e linguista Steven Pinker.
Em sua obra sobre a racionalidade, Pinker demonstra que o cérebro humano não opera como um processador lógico neutro.
Valendo-se das lições de Hugo Mercier e Dan Sperber, o autor esclarece que os seres humanos não evoluíram como ‘cientistas intuitivos’, mas sim como ‘advogados intuitivos’.
A razão não se desenvolveu para a busca desinteressada de fatos, mas sim para a produção e avaliação de argumentos em contextos sociais, visando à persuasão e à defesa dos interesses do indivíduo e de sua facção ou ‘tribo’¹.
Essa dinâmica é governada pelo ‘viés do-meu-lado’ ( my-side bias ) e pelo ‘raciocínio motivado’, mecanismos nos quais a habilidade cognitiva é direcionada para a validação de conclusões politicamente convenientes.
Como assevera Keith Stanovich, o viés do-meu-lado não é uma falha de inteligência bruta, mas sim um gatilho de preservação identitária que atua com vigor redobrado em temas políticos e morais, dividindo a sociedade em equipes concorrentes cujas visões de mundo tornam-se mutuamente incompreensíveis².
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