Migrações massivas (por José Sarney)
Há cerca de trinta anos, ouvi uma declaração que, hoje, reconheço como uma autêntica profecia.
Estava numa reunião do InterAction Council, fundação criada pelos japoneses e alemães para atuar, no tempo da Guerra Fria, como intermediadora de conflitos entre as Grandes Potências, formada por ex-chefes de Estado e de Governo, com apenas quarenta membros, entre os quais apenas dois da América Latina — eu e De la Madrid, do México.
Naquele encontro, realizado na cidade do México, ainda estavam vivos Fukuda, do Japão, grande estadista, muito influente no mundo àquele tempo; Gerald Ford, ex-Presidente dos Estados Unidos, e Helmut Schmidt, ex-Chanceler da Alemanha, cargo que corresponde ao de Chefe de Governo.
Foi justamente Helmut Schmidt, o mais eloquente orador que ouvi entre meus homólogos, quando eu era Presidente, que antecipou, naquela reunião, que duas coisas ameaçavam o futuro da Humanidade, o que, como uma confirmação da marca inequívoca dos grandes oradores, hoje se concretiza: as doenças desconhecidas e as migrações massivas.
Realmente, já enfrentamos a ameaça da Covid-19, com a inexistência de remédios, a luta universal para chegar à descoberta de vacina e o negacionismo de alguns loucos.
Mesmo assim chegamos a um final feliz, embora com alguns milhões de mortos no mundo inteiro.
Mas agora assistimos, estarrecidos, ao desespero de oitenta mil marroquinos que, enganados pelas falsas notícias de que a fronteira com Ceuta, fronteira da Europa com a África, estava aberta com a Espanha, se jogaram ao mar para fazer a travessia de 600 metros: ocorreram cerca de vinte mortes.
Esta região, uma passagem estratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo, tem sido, ao longo dos séculos, motivo de muitas guerras.
E foi numa delas, na Batalha de Alcácer-Quibir, que desapareceu Dom Sebastião, que veio, segundo a lenda portuguesa, encantar-se na Praia dos Lençóis, na Ilha dos Lençóis, no Maranhão.
Pelo nosso testemunho, presenciamos o início das previsões de Helmut Schmidt.
A Europa está vivendo o problema mais agudamente, com a invasão africana dos países outrora colônias europeias, que agora exportam muitos dos seus habitantes para os países desse continente.
Isto o mundo viu na última Copa de Futebol nos Estados Unidos, em que a maioria dos jogadores dos times europeus era africana.
Até, para surpresa, o goleiro do Japão era de origem africana.
Nós, aqui no Brasil, estamos livres das migrações massivas desordenadas.
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