Acidente da Voepass foi provocado por falhas que põem em xeque trabalho da Anac
A “Teoria do Queijo Suíço”, nome pelo qual se popularizou a Teoria das Falhas Ativas e Latentes, foi criada pelo psicólogo britânico James Reason no seu livro Erro Humano (1986) para explicar como grandes acidentes em sistemas complexos são provocados por uma sucessão de brechas na cadeia de segurança, tal qual um objeto que vai atravessando os furos de um queijo.
A queda do voo PTB-2283 da Voepass, em 9 de agosto de 2024, foi uma inequívoca demonstração da atualidade da tese.
Uma longa série de falhas humanas e técnicas tirou a vida de 62 pessoas que estavam a bordo da aeronave que caiu em Vinhedo, interior de São Paulo, como mostrou a conclusão do inquérito criminal da Polícia Federal , divulgado no dia 6.
Dezesseis pessoas foram indiciadas, incluindo o presidente da empresa, José Luiz Felício Filho.
Apesar das respostas sobre como o avião caiu, há muito o que esclarecer sobre as falhas de fiscalização que permitiram que ele ainda estivesse voando.
Um desdobramento da investigação vai mirar o principal órgão encarregado de garantir a segurança dos voos no país.
Partes do inquérito de mais de 81 000 páginas foram enviadas a Brasília pela PF com o objetivo de embasar a apuração sobre a atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Motivos não faltam: o relatório lista dezesseis problemas da Voepass que eram do conhecimento do órgão.
Apesar disso, entre o dia da queda e a cassação da licença da Voepass, passaram-se dez meses e mais de 2 000 voos operados pela companhia.
Depoimentos à PF deixam no ar suspeitas sobre possível leniência.
André Peres, um dos mecânicos da Voepass, disse que foi tirado da pista sob a acusação de que estava “criando caso” e “não queria botar os aviões para voar” por ter apontado, na frente da inspeção, problemas técnicos em aeronave.
“Eu acho que vocês têm que ir agora pesquisar a Anac, não só a Voepass.
Desculpa, falei”, disse a ex-comissária Alessandra Morales, que trabalhou treze anos na empresa.
“Na Azul, onde trabalhei, esse avião não sairia do chão”, afirmou Wagner Belizazzi, outro mecânico ouvido no inquérito.
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