Desemprego crescerá com ajuste fiscal 'inevitável', diz professor do Insper
Em seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de encarar um ajuste fiscal nos próximos quatro anos, com prováveis impactos sobre o mercado de trabalho e a atividade econômica.
"Acho que isso vai ser meio inevitável: não dá para continuar no ritmo que está, porque senão a inflação vai subir, a taxa de juros vai subir ainda mais, e vai ter mais problemas de endividamento", resume o economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista exclusiva à coluna.
Quando o assunto é o fim da escala 6x1, no entanto, o professor é cético quanto a eventuais efeitos negativos provocados pela medida, recentemente aprovado pelo Congresso Nacional.
"Teve um pouco de terrorismo das entidades patronais, dizendo que ia ter uma recessão, mas não vai ter nada disso. A vida vai continuar", prevê Menezes Filho — Ph.D. em economia pela University College London e autor de inúmeros artigos publicados em algumas das principais revista científicas do mundo.
Sobre a redução da desigualdade, ele diz que é preciso aumentar a tributação sobre os mais ricos, mas considera que o Estado brasileiro chegou ao limite da expansão das políticas de transferência de renda aos mais pobres. "Eu acho que você não precisa cortar [benefícios]. Você tem que parar de aumentar. É diferente, entendeu? É dar uma racionalidade", explica.
O diagnóstico mais contundente, porém, aparece ao falar das perspectivas de longo prazo. "Eu acho que o Brasil meio que perdeu o trem da história", afirma.
O desemprego no Brasil está em cerca de 5,3%, patamar mínimo histórico. O rendimento também tem crescido nos anos recentes, mas o alto nível de endividamento das famílias (em torno de 80%, segundo a CNC) asfixia o orçamento dos brasileiros. Quais são as perspectivas e os principais desafios do mercado de trabalho para os próximos quatro anos?
O que a gente espera para os próximos quatro anos é que vai ter que fazer um ajuste fiscal, porque a situação já vinha meio crítica e um monte de medidas foram tomadas nesses últimos dias [antes das eleições]. E isso está colocando a sustentabilidade fiscal em risco. Então, vai ter que fazer um ajuste.
Esse ajuste fiscal tende a causar um aumento do desemprego e uma desaceleração do mercado de trabalho. Acho que isso vai ser meio inevitável: não dá para continuar no ritmo que está, porque senão a inflação vai subir, a taxa de juros vai subir ainda mais, e vai ter mais problemas de endividamento.
Ajustes dessa natureza, no entanto, muitas vezes podem ter efeitos recessivos — como se tem visto na Argentina, por exemplo. Como equilibrar?
Depende do tipo de ajuste. Se for um ajuste como o feito no Chile e na Argentina, aí vai ter um impacto muito grande. Porque as despesas estão aumentando muito. E o aumento de gasto do governo tem sido um dos propulsores do aumento do crescimento econômico, da renda e da redução do desemprego.
Então, se for feito um ajuste radical, aí não tem jeito: vai ter recessão. Agora, se for um ajuste mais light, algumas mudanças na regra de indexação [dos gastos], de educação, saúde, manter o salário mínimo parado? Aí vai ter uma desaceleração mesmo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.