Uma Tragédia de Erros: a morte em live e a sanção ao Discord
Na tragédia grega, o desfecho fatal nunca é obra do acaso: é o resultado de uma cadeia de decisões, omissões e traços de caráter , a arrogância do excesso (a hybris ), a hamartia do erro que parecia pequeno, que se acumulam até que o público, tarde demais, reconheça o padrão.
O herói trágico raramente é vilão — é, quase sempre, alguém cercado por outros personagens que falham em cumprir o papel que lhes cabia no enredo.
Se cada um tivesse agido a tempo, não haveria tragédia, mas também não haveria a lição que ela deixa para quem assiste.
É essa a chave que proponho para ler o que aconteceu com a menina que a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul denominou de Lívia , para proteger seu nome real.
Não pretendo, com essa alegoria, apagar a dor concreta de uma família de Naviraí (MS) nem transformar uma adolescente real em personagem de ficção.
Pretendo o oposto: mostrar que sua morte não foi um evento isolado e imprevisível , mas o ponto de convergência de falhas que já vinham sendo anunciadas, em outros casos, com outras vítimas — e que continuarão a se repetir enquanto os mesmos erros de encenação não forem corrigidos.
O problema é que corrigir às pressas, cedendo ao impulso de reescrever o final sem revisar o roteiro, é o caminho mais curto para uma nova tragédia, ainda que disfarçada de solução.
O enredo Em 22 de julho, uma menina de 13 anos morreu em Naviraí, interior de Mato Grosso do Sul, durante uma transmissão ao vivo em um servidor fechado do Discord, que durou cerca de 40 minutos e foi acompanhada, em tempo real, por mais de 200 pessoas.
Segundo as investigações, ela vinha sendo coagida havia algum tempo por integrantes de um grupo virtual a cumprir desafios de automutilação e de crueldade contra animais, num processo de aliciamento psicológico que culminou no desfecho transmitido ao vivo diante da plateia que o grupo havia cultivado.
Uma segunda vítima, de 17 anos, foi submetida ao mesmo tipo de abordagem e sobreviveu.
A apuração, batizada de Operação Lívia, foi deflagrada em 4 de agosto pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com apoio técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Secretaria Nacional de Segurança Pública.
Foram cumpridos sete mandados em cinco estados, com a apreensão de cinco adolescentes, entre 13 e 17 anos, e a prisão de um homem de 18 anos.
O suposto líder do grupo é, ele mesmo, um adolescente de 14 anos.
As investigações apontam ainda a disseminação de conteúdo neonazista e misógino entre os integrantes, e a abertura de uma chave PIX em nome da vítima, sem conhecimento da família.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.tecmundo.com.br — o conteúdo pertence a TecMundo.