Assombro e fascínio: a comoção em torno do eclipse total do Sol visível no Hemisfério Norte
“O eclipse era tudo o que podíamos ver à janela — e assombro era tudo o que podíamos sentir.” A escritora americana Emily Dickinson (1830-1886) escreveu os belos versos sob o impacto de um desses fenômenos astronômicos no século XIX.
Na quarta-feira 12, a comoção mundial diante de um eclipse total do Sol mostrou que o momento raro em que a Lua projeta sua sombra sobre toda a circunferência solar continua a provocar deslumbramento e fascínio nos seres humanos — ainda que de um modo adequado ao espírito globalizado da era digital.
É como se a janela da poeta agora abrigasse todos os olhos do mundo.
O eclipse ficou visível em sua configuração completa, com o Sol totalmente coberto pela sombra da Lua, em um punhado de países europeus, como a Islândia, a Espanha e o norte de Portugal (em outras nações do continente, além da América do Norte, sua visualização foi parcial).
O Ministério da Economia espanhol estimou que 460 000 turistas estrangeiros foram ao país com o objetivo de ver o espetáculo nos céus.
Na Islândia, os preços de hospedagem dobraram por causa dele.
Mas o mais emblemático é que, graças à internet, o evento astronômico foi festa planetária: só a live transmitida pela Nasa acumulou 2,5 milhões de espectadores no YouTube.
O pico da ocultação durou meros dois minutos e dezoito segundos, mas foi suficiente para mesmerizar multidões usando óculos com lentes apropriadas, para não ferir a retina durante a exposição à radiação.
O clima de celebração é prova de que os séculos passam e os eclipses continuam a atiçar a curiosidade nas pessoas de qualquer idade ou nacionalidade.
SUPERSTIÇÃO - A reação nos tempos antigos: espanto diante do espetáculo no céu The Print Collector/Getty Images Continua após a publicidade Em outros momentos da história, quando a superstição ainda não tinha dado lugar à razão, o fenômeno amedrontava.
Na China antiga, a explicação era de que se tratava de um dragão atacando o Sol e tentando engoli-lo, enquanto para os hindus ele resultava das artes de um demônio.
Gravuras rupestres na Irlanda e no México apontam a atração primal do ser humano pelo acontecimento celeste, antes mesmo do mais remoto registro escrito a esse respeito — de aproximadamente 3 000 anos atrás, em uma tabuleta de argila na antiga cidade de Ugarit, na atual Síria.
O desconhecimento e o medo converteram-se em admiração com o maior conhecimento — o interesse dos sábios, aliás, vem de longe.
“Com o avanço da tecnologia os cálculos são cada vez mais precisos, mas a compreensão deles data da Antiguidade”, diz a astrônoma Josina Nascimento, do Observatório Nacional.
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