A náusea no caminho das urnas
Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”
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É oportuna a expressão "baixo astral" para o desalento público com a desmoralização da classe política. "O povo vai meter 300 bandidos no Congresso", diz um presidenciável. "Um manicômio", diagnostica outro, psiquiatra. São sinais do ethos tóxico, agudo diante de eleições cujo parâmetro ético-político é a rejeição dos candidatos. A chamada para o voto de manutenção da democracia representativa debilita-se com a persistente sensação de desamparo social. A saturação dos modelos de governança neoliberal e a decomposição da representação parlamentar suscitam uma insólita náusea coletiva.
Não se trata de nojo, esse mal-estar psicológico que decorre da visão de uma sujidade, de intolerância física ou de repugnância moral frente a um comportamento execrável. Geralmente é individual, mas o nojo coletivo se manifesta em situações aberrantes, como figuras de uma antropologia negativa. Ficou gravada na memória pública a postagem despropositada pelo ex-presidente da República de um vídeo repulsivo, conhecido como "golden shower". O fato e o ato definem-se como asco, nojo absoluto.
A náusea, entretanto, não se confunde com essa abjeção. Trata-se de sensação estranha, o profundo mal-estar existencial categorizado como uma das bases do existencialismo de Sartre , descrito no romance "A Náusea" (1938). O protagonista experimenta a angústia de perceber que não há sentido predeterminado para o mundo. Do choque da existência sem essência nem finalidade, tal e qual ela aparece, advém a náusea.
Essa narrativa filosófica, que sempre trafegou no círculo das altas ideias, tem hoje correspondências com o mundo das significações correntes. Significação é o que se vive na prática de uma estrutura ou de um fenômeno, é o que torna concreto um conceito aplicado à vida. Viver uma realidade é percebê-la e lhe dar uma significação.
O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência, com perturbações profundas nos modelos de percepção da realidade e de elaboração de significações. Algo como se as palavras estivessem anêmicas, perdendo força.
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Uma das consequências é a estupidez coletiva como fenômeno das clivagens político-partidárias agravadas pela infecção neofascista, que antes era assintomática. Nesse processo, aberto à ascensão ao poder por aberrações políticas, emerge popularmente uma formação psíquica, patológica ao juízo imediato, mas de fato relacionada ao distúrbio que na Antiguidade Clássica inquietou os estoicos: a estupidez. O indivíduo não reza a um pneu de caminhão porque é louco, e sim porque é idiota ou estúpido.
Para a mentalidade antiga, estoica principalmente, a estupidez era calamidade pública por afetar o laço social, dissolvendo formas de vida comunitárias, familiares e civis.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.