Crédito fácil e juro alto deixam 84 milhões de brasileiros inadimplentes
Mona Lisa Santana, 32 anos, comemorou cada novo cartão de crédito como uma pequena conquista pessoal. Com os cartões passou a ter acesso a limites de R$ 50 mil, R$ 60 mil e até R$ 150 mil mesmo sem comprovação de renda.
Foi a partir da pandemia que Santana acumulou 44 cartões de crédito de bancos tradicionais, digitais e de lojas. Ela relata que conseguia crédito em seu nome, da irmã e da mãe, sem precisar de confirmação de renda.
Usava um cartão para cobrir o outro ou pegava um empréstimo para pagar o mínimo da fatura de um dos cartões. Nisso, os juros sobre juros transformaram a dívida dela em um bolo de R$ 1,4 milhão.
A história de Santana ilustra os dados por trás do endividamento e inadimplências recordes.
Em agosto, o Mapa da Inadimplência da Serasa mostrava 83,9 milhões de pessoas com dívidas atrasadas há mais de 90 dias, o que representa pouco mais da metade (51%) da população adulta.
O problema é assunto da série de reportagens especiais "Brasil Endividado", que o UOL publica a partir desta segunda-feira (21) e vai abordar os seguintes temas:
O cartão de crédito lidera as contas atrasadas do brasileiro, com 27,2% das dívidas em aberto, seguido das contas básicas (21,1%) — como luz, água e gás —, e de faturas de financeiras (19,9%) e serviços (11,6%), segundo dados da Serasa.
A facilidade de acesso ao crédito, especialmente nos anos de pandemia, levou muitos brasileiros a se endividarem quando se viram sem renda, afirma Flávio Ataliba, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O juro alto agravou a situação. A taxa básica de juros, a Selic, foi de 2% ao ano em 2020 para a casa de 15% — hoje está em 13,75%. O empréstimo foi ficando mais caro. Nas linhas de crédito pessoal, as taxas de juros vão além da Selic, podendo chegar a três dígitos ao ano.
Para Bianka Amaral, especialista da Serasa em educação financeira, a questão, porém, vai além da facilidade de acesso ao crédito. "É um cenário diverso. O crédito é utilizado para diferentes finalidades na vida de cada consumidor", afirma.
Edgard Senaha, 37 anos, livreiro de um sebo em São Paulo, deve no cartão de crédito cerca de R$ 7 mil. Ele conta que tem ganhos flutuantes, o que dificulta a programação financeira.
A situação apertou há três anos, quando as pequenas livrarias perderam espaço para grandes editoras nas plataformas de vendas digitais. Tudo piorou quando a esposa perdeu o emprego e, com ele, a principal renda da casa.
Com isso, passou a fazer empréstimos para pagar o cartão. Fez um, dois, três. Quando estava prestes a contratar o quarto, decidiu interromper o ciclo. Bloqueou o cartão e deixou a dívida rolar. Agora, espera uma proposta de renegociação.
"Eu não consigo pagar [o saldo de R$ 6.900] nem em três meses. Isso me dá angústia, tristeza e preocupação", diz ele.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.