Obra-prima de Maryse Condé enfim ganha uma edição brasileira à altura
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Talvez "Negras Raízes", de Alex Haley, seja o mais ambicioso romance histórico da diáspora estadunidense. Ao reconstruir a trajetória de sua própria família desde o século 18, quando o ancestral mandinga Kunta Kinté é arrancado de sua Gâmbia natal e levado de navio negreiro até a Virgínia para viver e morrer escravizado, Haley junta peças da coleção de rupturas que define toda experiência diaspórica negra .
Geração após geração, as vidas no livro são interrompidas pela exploração capitalista e pela opressão supremacista branca. Acompanhando a experiência negra deste lado do oceano, da senzala à segregação, "Negras Raízes" impõe as dores de sucessivos desaparecimentos. É um efeito parecido com " Um Defeito de Cor ", de Ana Maria Gonçalves, nosso "Negras Raízes". É ruptura.
"Segu", da guadalupense Maryse Condé —ambientado praticamente na mesma quadra histórica do clássico dos Estados Unidos— pode ser a melhor resposta literária a essa pergunta.
Rigoroso do ponto de vista historiográfico, mas de prosa acessível e direta, o texto remonta, em quatro gerações de uma família nobre, o ápice e o ocaso da cidade de Segu, capital do império bambara, que dominou o Mali de 1712 a 1861.
Ao escapar da tentação diaspórica de embarcar a narrativa no navio, condenando o continente africano ao passado, Condé logra construir uma história negra do período escravagista na qual a escravidão e supremacismo branco subsistem, mas nunca tomam o centro do palco.
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E porque não deixa a África para trás, "Segu" também não a idealiza. Os lugares e personagens de Condé têm cheiro, sabor, materialidade e contradições de verdade.
Por exemplo, pela presença dos griôs e de sua poesia não apenas na vida cotidiana, mas na sustentação da ordem política; pela influência dos ancestrais e dos objetos mágicos por meio dos quais eles se manifestam em terra; pela crescente penetração cultural do Islã e a maneira como o monoteísmo aspira sorrateiramente à hegemonia.
Sem o devido cuidado na escrita, tudo isso pode fascinar o olhar ocidental ao ponto do exotismo. Não é o caso aqui: eles são tão naturalmente integrados à economia do romance que só fazem sentido.
Por outro lado, a trivialidade com que aborda o extraordinário, seja na religião, na cultura ou na violência, produz o que talvez seja o maior desconforto imposto pelo livro ao olhar contemporâneo.
Na sociedade bambara patriarcal, poligâmica e escravagista, há incontáveis estupros, que a autora não faz questão de tratar com indignação, mas como um dado do cotidiano.
Será que estupro era banal na sociedade bambara, como na nossa? Afinal, do ponto de vista institucional, raramente encaramos o estupro e a cultura que o sustenta como chocantes, ainda que socialmente seja de bom tom performar o choque. Condé não performa o choque —e com sua naturalidade, choca olhares contemporâneos.
Essa naturalidade no trato de uma cultura estrangeira, tanto no espaço quanto no tempo, reflete a trajetória da própria autora.
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