1946: o ano do carnaval comunista
Os anos entre 1939 e 1945 foram duros em praticamente todo o globo. A Segunda Guerra Mundial ceifou a vida de quase 90 milhões de pessoas. Se contarmos os conflitos no Pacífico Asiático, os números são ainda maiores, embora geralmente não sejam incorporados como resultados do grande conflito mundial, europeizado ao ponto de situar seu início apenas na invasão da Polônia pelo imperialismo hitlerista. O Brasil à época sofria com a ditadura do Estado Novo, que, dentre outras coisas, perseguiu a cultura brasileira, em especial a negra e indigena, influenciando no samba, na capoeira, no candomblé, até em questões políticas mais complexas, como a Marcha para o Oeste, que, visando a modernização do país, criou uma nova forma de colonialismo interno .
Vargas, como é bem registrado na historiografia, titubeou sobre o lado que iria apoiar durante a guerra. Determinante foi um acordo com os Estados Unidos que, em troca do envio de soldados brasileiros para o front europeu, recebia ajuda estadunidense para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Um neocolonialismo, para ser mais exato. Foi assim que 25 mil brasileiros – “Barbudos, Sujos e Fatigados”, como apontou o autor Cesar Campiani Maximiano, devido às condições com as quais chegaram para o combate – se dirigiram, principalmente, para a Itália. Muitos deles eram negros, sambistas, musicos em geral. Isso é importante dizer, não apenas pela extensa produção cultural desses artistas-soldados, fartamente documentada pela BBC . No Brasil, ocorria um movimento semelhante; uma guerra interna que se infiltrava, lentamente e de forma determinante, no campo da cultura brasileira e na sua expressão mais simbólica: o carnaval.
Chegada da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no Quartel de Realengo, Rio de Janeiro, 1945. ( Arquivo Nacional. Fundo Agência Nacional)
Os anos de 1945 e 1950 foram a época dourada dessa relação entre os comunistas e o carnaval brasileiro, mais especificamente, o carnaval de avenida, muito presente no sudeste do país. Em meu artigo “Que som tem uma revolução? – música e libertação nacional no Brasil” , desenvolvi essa dialética de forma macro, buscando aspectos mais amplos. O que trago aqui é quase uma micro-história dentro desse amplo campo de disputa. Em 1946, um ano após o final da guerra e do regresso dos pracinhas, o carnaval do Rio de Janeiro foi amplamente divulgado, sendo chamado de “Carnaval da Vitória”, celebrado pelo povo com ainda mais entusiasmo do que quando os soldados embarcaram para a guerra. A prefeitura do Rio de Janeiro, apesar de suas promessas, entregou uma péssima organização para essas comemorações, não fazendo jus à movimentação dos jornais da época, e da população carente de um carnaval mais livre.
É preciso entender o clima político no país em 1946: Vargas havia sido deposto, e nas eleições de 1945 Eurico Gaspar Dutra se tornou presidente do Brasil. O mesmo Eurico que, sob a chefia de Vargas, comandou a repressão à Intentona Comunista de 1935.
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