Livro best-seller 'Bons Tempos' cutuca vespeiro das 'tradwives' modernas
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Na literatura dos Estados Unidos , o primeiro semestre deste ano foi marcado por dois livros que, além de alcançarem o topo da lista de mais vendidos, também se assemelham ao questionar os alicerces do casamento.
Em "Strangers: A Memoir of Marriage" (ainda sem tradução ao português), Belle Burden expõe a fragilidade de sua experiência afetiva após seu marido há 20 anos deixar tudo para trás por um caso extraconjugal. A curiosidade sobre a vida privada da elite de Nova York catapultou as vendas.
Já "Bons Tempos – Yesteryear", que chega agora ao Brasil pela editora Rocco, deixou a internet em polvorosa pela aproximação entre este romance de estreia de Caro Claire Burke e a vida perfeita vendida pelos perfis de "tradwives" , as esposas que se mostram fiéis ao tradicionalismo nas redes sociais. É um movimento que põe em revisão o sonho americano.
Longe das fofocas digitais, é preciso atenção redobrada na leitura de "Bons Tempos". A protagonista Natalie Heller Mills é uma mãe dedicada, cristã fervorosa e dona de casa que decide transformar sua rotina em conteúdo. Começa postando algumas fotos despretensiosas, depois receitas caseiras, mas, ao viralizar, enxerga ali uma possibilidade de negócio.
Com as montanhas do estado de Idaho de pano de fundo, em uma fazenda equipada para colheita e para criação de animais, ela tem todas as ferramentas para tomar rédeas da narrativa de sua vida —que teve percalços familiares como um pai ausente, nenhuma amizade feminina e a constante necessidade de se provar perante a Deus e a si própria.
Sabemos, desde o começo, que tudo aquilo é um circo bem montado com o público aplaudindo (ou odiando) do outro lado da tela. Ela tem babás, uma cozinha equipada, uma produtora, advogados, agentes e o dinheiro herdado da família do marido.
Os vestidos florais, a dinâmica com as crianças e até os ambientes da casa são milimetricamente pensados para causar desejo, curiosidade e inveja. Com isso, Natalie provoca as "mulheres raivosas", termo que usa para descrever as feministas chocadas com a imagem tradicional sendo repaginada como um desejo contemporâneo.
Tudo isso para, um dia, a protagonista acordar em 1855 e sentir na pele os reais desafios desse ideal cristão —e as consequências da falta de liberdade.
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Apesar de lembrar a premissa de "Kindred", de Octavia Butler , "Bons Tempos" passa longe do gênero da ficção científica e põe em seu cerne uma estrutura clássica de suspense psicológico.
Intercalando seus capítulos entre diversas temporalidades —o passado em que Natalie cresceu, o presente e esse outro passado irreconhecível—, Burke levanta perguntas básicas sobre a narrativa ao passo que nos dá pistas da personalidade não confiável de sua narradora-protagonista. A escrita ácida e irônica ajuda o leitor a navegar um mar de descrição em detalhes, característico da literatura dos Estados Unidos.
É na primeira metade do livro que assuntos mais relevantes são tratados com destreza.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.