Facções brasileiras ampliam atuação violenta na fronteira com a Bolívia
Nas margens do fronteiriço rio Mamoré, bolsas de viajantes sobem e descem das lanchas sem parar no controle migratório em Guayaramerín, uma das portas de entrada das facções brasileiras que expandem sua violência pela Bolívia.“Nunca ninguém revista” os passageiros, diz Donald Somoza, pedreiro aposentado de 75 anos, nas proximidades do pequeno porto amazônico que vive do comércio com o Brasil.A pequena cidade de 40.000 habitantes, com pistas de terra avermelhada que contrastam com o verde da floresta, parece calma em meio ao intenso calor do dia.
Mas os moradores denunciam uma insegurança crescente.Segundo o governo boliviano, Guayaramerín, assim como outras localidades fronteiriças da Bolívia, viraram um "refúgio" do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), facções brasileiras que disputam o controle de corredores para traficar cocaína pelo Atlântico.Nas últimas semanas, uma dúzia de homicídios atribuídos a estas facções surpreenderam o país, onde é incomum ver crimes tão violentos, entre eles a chacina de uma família, a descoberta de corpos decapitados ou o homicídio de um agente da Polícia.Somoza garantiu ter testemunhado um assassinato com grande repercussão que aterrorizou a população local semanas atrás: a vítima estrangeira levou mais de 80 tiros em plena praça central em um suposto acerto de contas do narcotráfico.Este é “um aspecto bastante novo na Bolívia”, um “país muito seguro até alguns anos atrás”, explicou à AFP o pesquisador Joaquín Chacín, especialista em crime organizado.As quadrilhas de narcotraficantes antes trabalhavam com certa permissividade do Estado, que não as confrontavam para evitar um surto de violência, enquanto vigoravam entre elas uma "pax mafiosa", diz.
“Isto se rompeu de alguma forma”, acrescenta.Ariana Roca, uma professora boliviana de 35 anos, volta com suas sacolas de compras após cruzar o tranquilo rio Mamoré.
Ela vem da cidade brasileira de Guajará-Mirim, visível do lado boliviano.Ela conta à AFP que agora os crimes acontecem com maior frequência e “às vezes acontecem coisas até debaixo do nariz dos policiais”.Entre janeiro e setembro de 2025, foram denunciados 774 homicídios de todo o tipo, diante dos 325 no mesmo período do ano anterior, segundo dados do Ministério do Governo (Interior).Também cresce uma forte sensação de insegurança por assaltos à mão armada, sequestros e outras agressões.
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