Opinião: É hora da reciclagem brasileira sair da retórica e entrar na governança
O Brasil reúne condições únicas para liderar uma agenda robusta de economia circular (Ambev/Divulgação)
O Brasil gosta de afirmar que é um dos países líderes em reciclagem no mundo. Em alguns casos, essa afirmação é verdadeira.
O país possui cadeias de reciclagem importantes — especialmente em materiais como alumínio e papel — e construiu ao longo das últimas décadas uma experiência singular baseada na atuação de catadoras e catadores que estruturaram, com enorme resiliência, uma rede de recuperação de materiais em praticamente todo o território nacional.
No entanto, quando se olha para o sistema como um todo, é inevitável reconhecer que a reciclagem brasileira ainda convive com fragilidades estruturais relevantes.
Passados mais de quinze anos da promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, o país continua enfrentando desafios básicos: infraestrutura limitada de coleta seletiva, baixa capacidade de triagem em muitas regiões, fragmentação regulatória entre estados e municípios e sistemas pouco padronizados de comprovação da logística reversa .
Esse cenário revela uma contradição importante. Ao mesmo tempo em que a agenda da economia circular ganha centralidade nas políticas públicas e nas estratégias empresariais, o sistema institucional que sustenta a reciclagem ainda carece de maior robustez, transparência e governança.
A reciclagem deixou de ser apenas uma questão ambiental. Ela passou a ocupar espaço crescente nas agendas de competitividade industrial, segurança de cadeias produtivas e compromissos climáticos das empresas.
Investidores, consumidores e reguladores demandam cada vez mais evidências concretas de desempenho ambiental.
Nesse contexto, a credibilidade dos sistemas de logística reversa torna-se um elemento central.
Nos últimos anos, o país assistiu ao surgimento de diferentes modelos de compensação de embalagens e créditos de reciclagem . Essas iniciativas trouxeram dinamismo ao setor, mas também levantaram questionamentos importantes sobre rastreabilidade, adicionalidade e padronização de métricas.
Se a economia circular pretende consolidar-se como política pública estruturante, será necessário avançar para uma nova etapa institucional.
Isso significa construir mecanismos mais robustos de governança e verificação dos resultados ambientais. Cadeias produtivas complexas não se sustentam apenas com boas intenções ou declarações voluntárias. Elas exigem regras claras, padrões técnicos e sistemas confiáveis de auditoria.
Experiências internacionais mostram que setores como o florestal ou o mercado de carbono avançaram significativamente quando passaram a adotar modelos estruturados de certificação e verificação independente.
Instituições técnicas como a Associação Brasileira de Normas Técnicas e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia possuem capacidade institucional para contribuir com a criação de referenciais que fortaleçam a credibilidade do sistema.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em exame.com — o conteúdo pertence a Exame.