José Henrique Bortoluci vai atrás da 'gente miúda' para compor 'Geração Democracia'
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Em 2024, o sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci fez 40 anos. Chegou ao mundo no ano em que a ditadura militar brasileira morria.
"Somos desse grupo de brasileiros que nasceu com a democracia, num país em que ela mais parece uma roupa gasta que herdamos de um parente distante", ele escreve em "Geração Democracia", seu novo livro, que lança após estrear na literatura com o laureado "O que É Meu", ambos pela Fósforo.
Tudo bem que o sistema político que Winston Churchill resumiu em 1947 como "a pior forma de governo, à exceção de todas as outras", não está em sua melhor forma. Não após a "reemergência de uma visão autoritária no Brasil que sempre existiu, mas que voltou à tona de forma mais forte na última década, com o bolsonarismo", afirma Bortoluci à Folha .
Mas, por muito tempo, a democracia pareceu um fato consumado para sua geração, "como o ‘Programa Silvio Santos’ aos domingos ou a nossa supremacia no futebol mundial".
Ah, a ironia. A atração perdeu fôlego após morrer o dono do SBT, e a seleção brasileira não ganha uma Copa do Mundo há quase um quarto de século. Já a ilusão democrática desbotou para quem nasceu no miolo dos anos 1980 e cresceu sob a égide da redemocratização e da Constituição de 1988.
Há um sentimento de alívio por ter vindo após o regime militar, alheios ao medo da censura e das prisões arbitrárias, mas isso gera também uma "melancolia de quem chegou tarde demais às grandes lutas coletivas do passado", segundo Bortoluci.
Mas quem é, afinal, essa turma para quem a democracia é o "ponto de partida", e não o "ponto de chegada"?
Ele prefere escutar do que teorizar. Ziguezagueou o país para entrevistar personagens tão distintos quanto uma policial militar que admira Paulo Freire e um ex-traficante que, hoje missionário evangélico, converte criminosos. Conversa com a militante de esquerda e o "patriota até o osso". Interessa-lhe "a gente miúda, os sujeitos que, na Atenas clássica, teriam ficado de fora da ágora, e que, no Brasil contemporâneo, frequentemente seguem alijados das narrativas sobre a democracia de que fazem parte", diz.
O autor se questiona se suas "armas intelectuais" como sociólogo estão "perdendo o corte". Reflete se a esquerda universitária possui "teorias demais e aprendizados de menos". E admite "um certo cansaço com uma fábrica de análises" que diz não desprezar, mas que domina "o cenário intelectual brasileiro desde 2013" e tenta dar sentido a fenômenos correlatos —da reconfiguração da classe trabalhadora, uberizada e precarizada, à amplificação de vozes autoritárias.
Bortoluci opta pelo papel de "arquivista desorganizado", coletando os "cacos de histórias" de gente da sua idade. É a postura que lhe parece mais honesta num momento em que "o futuro é um buraco no asfalto que pode nos derrubar, e a crítica é um cão sem dono, que lambe as patas enquanto espera que alguém o adote novamente".
A dificuldade em conceber futuros viáveis entra como patologia geracional. "Tenho dito que o futuro é uma ficção política.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.