Sem fruta, macaco-prego vira caçador tal como ancestrais humanos
Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"
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Ver um macaco-prego encarapitado em fios telefônicos, com uma pomba das mais gorduchas que lhe pendia da boca não era bem o que eu estava esperando ao morar perto de um fragmento florestal. (A bizarrice da cena só perde para o dia em que um quati escalou a cerca que nos separa da mata equilibrando um pote de achocolatado no focinho.)
O fato, porém, é que eu não devia ter ficado surpreso: os macacos-pregos podem ser predadores de mão cheia, e um novo estudo indica que seus talentos para a caça talvez iluminem até o que sabemos sobre certos aspectos da evolução humana.
Como há várias espécies aparentadas de primata que têm o mesmo nome popular, o bicho de que trata a pesquisa, o Sapajus libidinosus , provavelmente não é o mesmo que os meus vizinhos, já que habita o município de Gilbués (PI), numa zona de transição entre o cerrado e a caatinga. Na localidade, há dois grupos de macacos-pregos que já são observados há vários anos por uma equipe que inclui Patrícia Izar e seus colegas do Departamento de Psicologia Experimental da USP .
Os pesquisadores estavam particularmente interessados na caça a vertebrados, um comportamento já registrado em 89 espécies de primatas até agora, mas que tem nos macacos-pregos alguns de seus maiores representantes.
O que a equipe queria entender, conforme narrado em artigo na revista científica PLOS One , era o possível padrão de incentivos que levava os bichos a capturar outros animais , bem como as diferenças individuais que levavam certos macacos a investir mais ou menos tempo nessa prática trabalhosa e sangrenta, mas também potencialmente muito nutritiva.
Vale mencionar ainda outro detalhe importante: um dos grupos costumava receber "provisionamento" –agrados como castanhas, milho e água– para facilitar a observação dos macacos, enquanto o outro não. A diferença também virou uma maneira de checar os fatores que estimulam a predação: num contexto de comida farta, ainda vale a pena caçar?
Depois de mais de 5.000 horas de observação, nas quais a equipe registrou 446 casos de predação de vertebrados. Na conta entra o consumo de ovos, mas também a captura de aves já nascidas, répteis (lagartos, lagartixas, iguanas e até cobras; no caso delas, os macacos arrancam a cabeça e consomem o resto) e mamíferos (roedores, gambás e morcegos).
Em meio à carnificina emergem certos padrões. De fato, o provisionamento faz com que um dos grupos seja menos ávido na hora de caçar. Os macacos-pregos partem para a caça com mais frequência quando as frutas escasseiam e também quando são do sexo masculino. Além disso, dão preferência ao consumo do cérebro e das vísceras dos bichos que lhes caem nas mãos.
Os paralelos são intrigantes, ainda que não definitivos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.