‘Nossa curadoria é anti-imperialista’: uma entrevista com Miguel Yoshida, editor da Expressão Popular
O MST ( Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ) do Brasil é atualmente um dos maiores e mais conhecidos movimentos populares do mundo. As centenas de milhares de famílias no MST pressionam por uma reforma agrária radical, principalmente ocupando terras não utilizadas ou mal utilizadas e reivindicando a redistribuição.
Fundado em 1984, o movimento tornou-se especialmente famoso — e um símbolo de resistência determinada à extrema direita — durante o desastroso governo de Jair Bolsonaro, quando mobilizou seus militantes para se opor ao presidente e empregou seus recursos materiais para alimentar brasileiros famintos. O que é menos conhecido é que o MST mantém sua própria editora, a Expressão Popular, parte importante do ecossistema intelectual do país. Desde 2012, Miguel Yoshida atua como coordenador editorial, publicando com foco na luta de classes, no anti-imperialismo e no futuro do Sul Global. Miguel conversou com a North South Notes em junho e julho.
Vincent Bevins: Muita gente já ouviu falar do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Brasil — ele se tornou um tanto famoso mundialmente nos últimos anos — mas acho que poucos sabem que o MST tem sua própria editora. Como isso veio a acontecer?
Miguel Yoshida: A editora nasceu em 1999. Bem, antes de tudo, 1996 foi um ano difícil e decisivo para o MST. Foi o ano do Massacre de Eldorado do Carajás, quando 21 trabalhadores sem terra foram mortos pela polícia militar. Em resposta, o MST organizou uma longa marcha até Brasília, que conseguiu constituir uma mobilização social significativa contra as políticas neoliberais do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Ao mesmo tempo, o MST — e outros movimentos populares — chegou à conclusão de que era preciso dar um salto teórico também. Em que sentido? Após a queda do Muro de Berlim, houve, não apenas aqui no Brasil mas no mundo todo, uma onda de desilusão com a esquerda. Sabe: “Ok, o socialismo não funcionou, vamos desistir.” Conhecíamos muitos intelectuais que simplesmente jogaram suas bibliotecas no lixo.
A natureza do imperialismo estadunidense mudou significativamente nos últimos anos? O editor tem buscado refletir sobre o impacto do atual governo Trump, por exemplo?
Miguel Yoshida: No que diz respeito a publicações, lançamos um livro de um jornalista cubano sobre o pensamento de Marco Rubio. É uma análise do próprio Rubio chamado “Marco Rubio, mentiroso patológico” — que demonstra como esse filho de migrantes baseia toda a sua carreira em um preconceito profundamente xenófobo, com a intenção explícita de recuperar o poder imperial sobre a América Latina.
E a nossa avaliação é que o que está claramente em jogo é a hegemonia dos Estados Unidos — o império está em declínio — e esse império, sentindo-se ameaçado por potências emergentes como a China e outras nações dentro e fora do BRICS, torna-se cada vez mais agressivo e destrutivo. Quando uma fera está encurralada, ela ataca desesperadamente, e o imperialismo na sua fase atual parece estar atirando em todos e em todas as direções. Essa leitura crítica sustenta a nossa curadoria de trabalho anti-imperialista.
Este ano, Lula disputará seu quarto mandato.
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