Luís Amado: "Se sobrevivermos aos próximos anos, vamos assistir a uma estabilização do sistema internacional"
O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), Luís Amado, afirmou hoje, 19 de outubro, que o sistema internacional está em mudança, numa crise diferente de todas as anteriores, mas que os EUA, a China e a Rússia se entenderem, até meados da década de 2030, assistiremos a uma "estabilização" do sistema de relações internacionais, que evite uma "guerra mundial".
"A estabilização tem de começar por cima, pelas três grandes potências, que têm de se entender sobre as suas esferas de influência e respetivos interesses", disse Luís Amado, numa intervenção na conferência sobre a proposta de Orçamento do Estado para 2027, promovida pela RFF Advogados, em Lisboa.
Nesse novo mundo multipolar, disse, o valor supremo será a segurança, quando há uma década se falava sobretudo em liberdade e direitos humanos.
"Esse mundo acabou", sentenciou.
E a Europa? Luís Amado acredita que não é certo que a Europa - que está numa "solidão estratégica" - tenha um lugar à mesa nesse entendimento, ao contrário do que sucedeu em Ialta, onde Churchill acabou por representar o Velho Continente.
O antigo MNE frisou que neste momento a Europa está em guerra com a Rússia e com dúvidas de que os EUA estejam disponíveis para a defender.
"Estamos em guerra com a Rússia, num momento muito perigoso ", numa altura em que a Europa ainda não definiu os termos exatos da sua defesa comum, a qual vai exigir sacrifícios no estado social.
"É um cenário muito perigoso e complexo" , defendeu o antigo MNE.
"A elite que governa a Europa colocou-nos numa situação em que já não estamos em condições de fazer a paz exclusivamente por nossa vontade.
Temos de continuar a apoiar a Ucrânia até que os EUA alcancem uma paz com a Rússia que a Europa consiga aceitar", defendeu.
Salientou que vai existir muita dificuldade em garantir a sustentabilidade do projeto europeu, notando que as sociedades europeias não estão em condições para formar uma união política.
Esse cenário é "necessário, mas impossível", disse Luís Amado.
"Estamos a assistir a uma crise diferente de todas as que conhecíamos até agora.
É uma transformação brutal, com dinâmicas que impactam todos os sistemas políticos e económicos", acrescentou o antigo MNE, na sua intervenção.
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