A derrota da vontade
“Todo o meu corpo tremia e comecei a suar muito, fui, de alguma forma, capturada por uma força magnética”, recorda Leni Riefenstahl ao descrever o impacto que nela teve o primeiro discurso de Adolf Hitler a que assistiu, no Sportpalast, em Berlim.
É este testemunho que abre os 115 minutos de Riefenstahl, documentário de Andres Veiel sobre a atriz e realizadora que, com uma sofisticação formal inédita, ajudou a construir a gramática visual da propaganda nazi.
Mas o que o filme realmente ilumina não é apenas a biografia de uma mulher.
É um mecanismo: a capacidade de revestir projetos de poder com a linguagem da redenção, da pacificação e da grandeza nacional — e a facilidade com que essa linguagem desativa o juízo crítico de quem a recebe.
À mestria técnica de Riefenstahl contrapõe-se, ao longo do filme, uma figura que insiste em apresentar-se como ingénua, apolítica, quase acidentalmente arrastada para o centro do poder.
Veiel desmonta essa autoabsolvição através de áudios, telefonemas com Albert Speer e entrevistas televisivas em que a realizadora é confrontada com perguntas incómodas.
A sua alegada distância em relação à doutrina nazi torna-se particularmente reveladora quando afirma ter seguido Hitler porque, nos primeiros dois anos em que este se afirmou como líder nacional-socialista, “apenas falava de paz”.
Não por uma equivalência direta entre épocas, regimes ou protagonistas — seria intelectualmente pobre e historicamente abusivo fazê-lo –, mas pela persistência desse mesmo mecanismo noutros contextos, a narrativa trumpista deixa de parecer apenas um episódio de vaidade pessoal e passa a revelar algo mais estrutural: a política como espetáculo, a mensagem como encenação e a paz como dispositivo retórico.
Desde a sua primeira campanha presidencial, a comunicação de Trump assentou numa matriz clara: a promessa de restaurar a paz, o endurecimento do combate à imigração e o ataque permanente a uma corrupção supostamente entranhada nas elites políticas, culturais e mediáticas.
O discurso populista não floresceu apenas em períodos de colapso económico ou de rutura social evidente.
Ganhou força em ciclos marcados por crescimento do PIB, criação de emprego e indicadores macroeconómicos favoráveis.
Trump percebeu, como poucos, que dentro da América existem várias nações, com interesses, ansiedades e velocidades distintas.
Para uma parte significativa do eleitorado, os números positivos não anulavam a sensação de perda: perda de estatuto, de reconhecimento, de segurança cultural e de controlo sobre o futuro.
Essa América não surgiu com Trump.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em eco.sapo.pt — o conteúdo pertence a ECO.