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‘Observação do Verão’: ler na única estação

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‘Observação do Verão’: ler na única estação

Observação do Verão é o título de um livro de poesia de Gastão Cruz, publicado em 2012.

Trata-se de um pequeno grande livro de um dos mais importantes poetas dos últimos 50 anos da nossa literatura e, sem dúvida, um dos últimos autores que, devido à extrema ousadia de uma imaginação sempre viva, conjugou de modo sábio e fiel, a uma ideia de arte, a dicção clássica, dominando a sintaxe como poucos, próxima da frase camoniana, com uma apuradíssima capacidade de transfigurar pelo poder da imagem a realidade mais crua.

É impossível não estremecer, neste verão, com a leitura de alguns poemas do autor de Observação do Verão , uma vez que, nesse livro de apenas 24 poemas, como noutros ora mais extensos, ora mais breves, a reflexão sobre o tempo e o amor, o corpo e a morte, o sentido e o absurdo de viver, a dúvida e a meditação sobre a própria linguagem, tudo se une numa densa trama verbal que, a cada leitura, confirma o estatuto de clássico que um contemporâneo pode atingir.

Num poema desse livro que releio neste verão, a memória é o tema:.

Memória A voz rouca da noite exprime a nossa memória poderia dizer a nossa história mas evito o que possa anular o sentido do que procuro manter vivo O que este poema expõe é que o próprio Verão funciona como tempo da memória, época ideal em que resgatamos da voz rouca de uma qualquer noite onde houve dor, a história ou as histórias que fazem parte da nossa vida.

Por isso lemos no verão, porque como estação única, observamos esse tempo e, dentro dele, vemos as secções de tempo de que se fazem as eras do nosso percurso vital.

O verão também nos observa, como a ambiguidade do título do livro de Gastão sugere.

Ler o Verão ou ler no Verão vem a ser o mesmo? É possível.

Levamos livros para a praia e lemos porque há tempo.

Mas nem toda a leitura no Verão será a mesma e, logo, nem todo o Verão terá a mesma ressonância.

Não mergulhamos duas vezes nas mesmas águas dos livros.

As águas mudam.

O gozo do Verão também e um livro que teve certo eco há dez anos, não o tem, ou tem outro, agora.

Porém, se leio Observação do Verão deste poeta, ou, de Ruy Belo um livro como Toda a Terra (1976), ou se me detenho a ler de novo um poeta como Octavio Paz, ou José Emílio Pacheco, é ainda de ecos de Verões passados que terei de falar, porque a memória de imagens de outrora são um outrora agora renovado a cada leitura.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.

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