O desastre anunciado que não aconteceu
Há poucas semanas, o processo de correção digital dos exames nacionais era descrito como um desastre em curso. Um movimento de professores documentava, quase ao minuto, dezenas de casos de convocatórias erradas, incluindo docentes já reformados ou, nalguns casos, já falecidos. A Fenprof apresentou queixa na Procuradoria-Geral da República. O PCP forçou um debate de urgência no Parlamento, com uma deputada a falar em “opção política desastrosa” a colocar “em causa a vida destes jovens”. O ministro da Educação chegou a admitir, publicamente, que o processo podia acabar em Portugal se os problemas se repetissem. Semanas depois, os números contam uma história bem diferente: todos os exames foram corrigidos e classificados, o calendário de acesso ao ensino superior manteve-se inalterado, e a primeira fase do concurso de acesso registou 60.391 candidatos, o número mais alto em três décadas fora dos anos de pandemia.
Vale a pena parar aqui antes de seguir em frente. O que estava em causa não era uma medida cosmética. Era a extensão da correção digital a todas as disciplinas dos exames nacionais, depois de, no ano anterior, o modelo ter sido testado apenas com Filosofia. Passar de uma prova-piloto para um sistema nacional com centenas de milhares de exames de um ano para o outro é, por definição, um salto arriscado. Não era ajustar um detalhe do sistema educativo. Era mudar-lhe a espinha dorsal, num dos processos mais sensíveis e mais escrutinados do calendário nacional.
E, sendo justo, os problemas foram reais. Houve convocatórias erradas, plataformas inacessíveis em momentos críticos, professores a receber pedidos de correção de disciplinas que não lecionavam. Nenhuma dessas falhas deve ser branqueada, e o próprio ministro reconheceu, sem rodeios, que “a primeira fase não começou bem”. Mas há uma diferença enorme entre um sistema que tropeça no arranque e um sistema que colapsa. E é essa diferença que a narrativa dominante, nas primeiras semanas, insistiu em apagar.
É um padrão conhecido em Portugal: qualquer fricção numa reforma é imediatamente lida como falência total, muitas vezes antes de o processo sequer terminar. Confunde-se, com uma facilidade preocupante, ter problemas com ter falhado. E essa confusão tem um custo político elevado, porque cria um incentivo perverso: mais vale não arriscar nada do que arriscar e tropeçar em público.
É precisamente por isso que a atitude do ministro da Educação nesta reforma merece ser reconhecida, independentemente da avaliação técnica que se faça do processo. Perante um debate de urgência no Parlamento, uma queixa formal ao Ministério Público e semanas de pressão mediática constante, a resposta mais fácil, e a mais comum entre governantes portugueses, teria sido recuar, suspender o modelo e devolver o problema para o ano seguinte. Não foi isso que aconteceu.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.