CEO da DE-CIX: "O simples alojamento de servidores dentro das fronteiras europeias não cria soberania digital"
A narrativa dominante nos corredores comunitários dita que a construção acelerada de centros de dados em solo europeu é o passaporte para a soberania digital da União Europeia.
Mas Ivo Ivanov, presidente executivo da DE-CIX – o maior operador mundial de pontos de troca de tráfego de Internet ( Internet Exchange Points , ou IXP) –, garante que essa leitura ignora o cerne do problema: de nada serve guardar ficheiros dentro das fronteiras da UE se toda a tecnologia que os processa e transporta continuar ancorada do outro lado do Atlântico.
"Esta disparidade não se resume apenas ao número ou no tamanho dos centros de dados.
Reflete uma dependência mais ampla em várias camadas tecnológicas – desde processadores e modelos de IA até às plataformas de cloud , software e cadeias de abastecimento globais", alerta o gestor ao DN/Dinheiro Vivo, em antecipação aos temas da Atlantic Convergence 2026 , conferência internacional que decorre entre 29 de setembro e 1 de outubro no Pátio da Galé, em Lisboa.
Para o responsável da tecnológica com sede em Frankfurt, o continente arrisca uma falsa sensação de segurança: "O simples alojamento de servidores dentro das fronteiras europeias não cria automaticamente soberania digital se as organizações continuarem dependentes de um pequeno número de fornecedores para as tecnologias que os suportam." A advertência ganha peso acrescido quando vinda de uma entidade neutra, cuja infraestrutura suporta uma parcela crítica do tráfego global da Internet e dos serviços de computação em nuvem.
Mas Ivanov recusa qualquer tentação protecionista face às tecnológicas norte-americanas.
A solução europeia, sustenta, passa pela neutralidade, interoperabilidade e liberdade de escolha.
"A Europa não precisa de reproduzir todas as tecnologias internamente nem de se desligar da inovação global.
O que a Europa precisa é de escolha e controlo genuínos: escolha sobre onde os dados são armazenados e processados, quais os fornecedores utilizados, que rotas percorrem os dados e a capacidade de trocar de fornecedor sem ficar preso a um único ecossistema proprietário", sublinha.
Saturação no centro da Europa empurra computação para Portugal É nesta arquitetura de rotas alternativas e descentralização que Portugal assume um papel de pivô geopolítico crucial.
Os cinco grandes mercados tradicionais da infraestrutura digital da Europa – o eixo Frankfurt, Londres, Amesterdão, Paris e Dublin (conhecido no setor pela sigla FLAP-D) – enfrentam já limites severos de espaço e, sobretudo, constrangimentos de acesso a energia.
Com os modelos de Inteligência Artificial a exigirem volumes contínuos de eletricidade, Ivanov aponta que a geografia digital do continente está a ser forçada a uma reorganização.
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