Sustentabilidade do modelo de desenvolvimento na era da automação cognitiva
Há um equívoco que atravessa quase todo o debate público sobre o futuro do trabalho e a transição digital.
Perguntamo-nos, obsessivamente, quantos empregos a inteligência artificial vai destruir e se o destino das economias avançadas é dissolverem-se numa vasta economia de serviços.
São perguntas mal formuladas.
A questão decisiva não é quantos serviços produziremos, nem sequer quantos postos de trabalho mudarão de natureza.
É saber que territórios e que empresas passarão a controlar as atividades transacionáveis — incluindo os serviços que a tecnologia tornou comerciáveis à distância — e como se distribuirão os rendimentos que delas resultam.
Faço esta distinção porque dela depende todo o resto.
A sustentabilidade do modelo de desenvolvimento de uma economia aberta assenta na sua capacidade de gerar, de forma competitiva, bens e serviços transacionáveis.
É essa capacidade que permite pagar o que se importa, remunerar o trabalho de forma crescente e financiar os serviços que consumimos internamente.
A automação cognitiva — a designação que prefiro para esta vaga de inteligência artificial, porque descreve com rigor o que ela faz — não altera esta lei fundamental de proporcionalidade macroeconómica.
Altera, sim, e profundamente, os determinantes da competitividade e, sobretudo, a geografia onde a produção transacionável se localiza e onde o seu valor é apropriado.
A minha tese é simples de enunciar e exigente de cumprir.
A inteligência artificial tende, numa primeira fase, a concentrar os ganhos nos territórios e nas organizações que já dispõem de capital, dados, competências, infraestrutura e redes de conhecimento.
Não é um vento que sopra igualmente sobre todos os barcos.
É uma maré que ergue sobretudo quem já tem porto de abrigo, e que pode deixar encalhados os que dele carecem.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em eco.sapo.pt — o conteúdo pertence a ECO.