A estupidificação
No ano passado, mostrei It’s a Wonderful Life a uma turma do 10.º ano. A certa altura, a diretora de turma chamou-me à parte e, com algum embaraço, recomendou-me que tivesse cuidado com os filmes que andava a mostrar. Ao que parece, uma mãe estava desagradada por ter sido exibido um filme em que havia uma tentativa de suicídio. A escola, argumentava a mãe, só devia dar bons exemplos. No fundo, trata-se de uma posição reconfortante: a evolução da espécie humana tem sido tão acelerada que um dos filmes favoritos do papa já pode ser catalogado como uma má influência.
O estimado leitor pode nunca ter visto o filme em questão. Mas o seu resumo faz-se rapidamente. George Bailey é um homem generoso que sempre sacrificou os seus sonhos para ajudar os outros. Na véspera de Natal, enfrenta graves problemas financeiros. Irrita-se com a família. Sai de casa, dirige-se a uma ponte e, quando está prestes a suicidar-se, Deus envia um anjo para o salvar. Mais tarde, formula um desejo: «Quem me dera nunca ter nascido.» O desejo é-lhe concedido e George descobre que muitos destinos dependeram de escolhas que, até então, julgava insignificantes. Arrepende-se. Pede ao anjo que reverta a decisão. O anjo acede ao pedido. George volta para casa e tudo acaba bem. Fim.
Não sei se perceberam de que «tentativa de suicídio» estamos a falar, nem a que espécie de «maus exemplos» nos estamos a referir. Mas há algo que podemos concluir: vivemos no tempo da estupidificação. Vivemos num permanente dia de reflexão pré-eleitoral. Temos acesso a tudo, podemos ver qualquer conteúdo nos nossos telemóveis, mas não podemos falar sobre isso porque, se o fizermos, levamos com uma queixa em cima.
Há algo de inquietante nisto: uma tendência cada vez mais acentuada para a literalidade, que coincide com uma vertigem em torno das boas maneiras e da civilidade. Em História, deixa de ser possível falar de Hitler, uma vez que não consta que tenha sido um exemplo particularmente recomendável. Em Português, teremos de retirar quase toda a literatura. Nem o lobo do Capuchinho Vermelho escapa, visto que, ao que parece, possuía hábitos alimentares pouco pedagógicos. Aliás, nem sei como vamos fazer este ano, quando as inocentes crianças tiverem contacto com aquele livro ordinário em que dois irmãos fazem certas e determinadas coisas juntos. Não se podem esperar senão as piores consequências para a harmonia familiar. Restam, talvez, os manuais de instruções das máquinas de lavar, embora alguns aconselhem programas bastante agressivos. Como Flaubert, parecemos estar sentados no banco dos réus por termos insultado a moral pública.
Tenho algumas reservas em relação à ideia de aprendizagem mútua entre alunos e professores na sala de aula. Creio que isso tem favorecido a transferência da autoridade para os alunos e, em última análise, para os pais. Em consequência, conceitos como o esforço, o embate e a fricção tornam-se insultos inaceitáveis. Já não se pode exigir nada de um aluno, nem sequer dizer-lhe: «Tens de ler mais.» Isso é visto como um ato de violência. Era o que faltava: agitar tão miríficos bibelôs.
Tudo isto tem um efeito perturbador.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.