Justiceiros de Copacabana e da UFRJ: duas faces da mesma moeda
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Uma amiga me falou no meio da semana dizendo que estava sem energia, drenada pelo noticiário. Não é para menos. Tem dias em que abrir o jornal parece um teste de resistência psíquica. É a contabilidade macabra do feminicídio que não dá trégua , a violência urbana naturalizada e a constatação estarrecedora de que o país decidiu adotar o justiçamento como método oficial de acerto de contas.
Nos últimos dias, dois episódios escancaram a falência do nosso pacto civilizatório. Em Copacabana, Cláudio Rafael, um homem de 37 anos com transtorno mental, foi cercado e espancado até a morte por um segurança e entregadores de aplicativo. O motivo? Pedalava uma bicicleta que o grupo julgou ser roubada –quando na verdade pertencia à irmã dele. Não teve averiguação, denúncia, polícia. Houve apenas a fúria covarde de quem se acha no direito de julgar, condenar e executar a pena capital ali mesmo no asfalto. Um dos agressores ainda teve a desfaçatez de comparecer à delegacia com a bicicleta da vítima.
Dias depois, no Largo de São Francisco, no centro do Rio, outro espancamento, desta vez dentro do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Um estudante apareceu com uma camiseta contendo símbolos associados ao nazismo. Foi cercado, agredido e expulso sob socos e pontapés nas escadarias do prédio histórico.
Apologia do nazismo é crime abjeto, inaceitável e previsto em lei. O caminho civilizado e republicano é simples: acionar a segurança do campus, chamar a polícia, dar voz de prisão em flagrante e exigir que a Justiça aplique o rigor da lei. Ponto. A turma, no entanto, preferiu a selvageria.
Ouvido sobre o episódio, o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, se apressou em dizer que não vê paralelo entre os dois linchamentos. Segundo ele, o de Copacabana foi "o absurdo do absurdo", enquanto o da universidade foi uma reação a um fato que afronta literalmente a democracia e os direitos humanos. Ao tentar equilibrar pratos para não desagradar sua comunidade acadêmica, a autoridade máxima da universidade tropeça na lógica, relativiza o espancamento e flerta com a equiparação entre uma possível provocação e a violência física consumada.
Depois da tese de que "palavras matam", seremos obrigados a engolir que "camisetas matam"? Uma estampa, por mais asquerosa que seja, não quebra dentes, não esmaga costelas nem racha crânios. A violência física, sim.
E aqui cabe a provocação inevitável: qual é a diferença entre os justiceiros de Copacabana e os da universidade? Ambos agiram como bárbaros. Mas os primeiros são homens em trabalhos precarizados, submetidos a jornadas extenuantes, longe de espaços de reflexão e de debate, engolidos pela brutalidade do cotidiano. Isso não serve de desculpa nem atenua a covardia de um assassinato brutal.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.