Na estrada com Fidel, uma road trip caribenha e socialista
Em novembro de 2016, desembarquei em Havana com uma ideia incomum: percorrer Cuba fotografando os seus outdoors.
Há muito eu nutria o desejo de explorar o país por meio daquela iconografia única que acompanha quem visita a Maior das Antilhas: grandes painéis coloridos, pinturas, lemas, consignas, pensamentos e personagens que contam a história da Revolução Cubana.
Poucos dias depois da minha chegada, em 25 de novembro, Fidel Castro morreu.
A viagem ganhou, então, inevitavelmente, outro significado.
Fui ao velório na Plaza de la Revolución , acompanhei o luto nacional e, nos dias seguintes, continuei o percurso que havia planejado.
De carro, ônibus e táxi, atravessei Cuba de ponta a ponta, da capital a pequenas localidades rurais, passando por todas as províncias e percorrendo mais de 3.000 quilômetros.
Foi uma espécie de road trip caribenha e socialista.
Desse percurso nasceu o livro Na estrada com Fidel: a propaganda na Revolução Cubana , publicado originalmente em 2018 e que agora ganha uma segunda edição, revista e ampliada.
No livro, estes outdoors cubanos representam a negação da publicidade comercial que encontramos nas grandes cidades capitalistas.
Não vendem automóveis, planos de telefonia, refrigerantes ou apartamentos.
Em seu lugar, além de Fidel, claro, estão Camilo Cienfuegos, Che Guevara, Raúl Castro e Celia Sánchez; aparecem também personagens internacionais incorporados ao imaginário político cubano, como Nelson Mandela e Hugo Chávez, além de figuras muito menos previsíveis, como Ethel e Julius Rosenberg, nova-iorquinos filhos de imigrantes judeus, condenados e executados na cadeira elétrica, em 1953, acusados de espionagem em favor da União Soviética.
Em outros painéis, o personagem é o próprio Tio Sam, convertido em representação gráfica do antagonismo histórico com os Estados Unidos.
Há ainda frases de Fidel e Martí, palavras de ordem, as tão necessárias conclamações à soberania nacional e ao socialismo, campanhas de conscientização e mensagens sobre saúde, educação, trabalho e igualdade.
Há dez anos, Cuba vivia sob uma maré de otimismo.
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