As novas iniciativas de museus franceses para recuperar obras de arte surrupiadas pelos nazistas
O ano era 1933, e Adolf Hitler, recém-empossado chanceler na Alemanha, fez passar na marra uma lei que permitia ao governo tocar o país sem o crivo do parlamento, plantando ali a semente do regime totalitário que protagonizaria um dos mais brutais capítulos da história.
No sistemático atropelo a noções básicas de civilidade, nem mesmo a arte, terreno em que o próprio líder nazista nutria ambições nunca concretizadas, saiu ilesa.
Ao mesmo tempo que acumulava poder, Hitler encabeçou uma cruzada contra obras que classificava como “degeneradas”, rol em que alojava as vanguardas (cubismo, abstracionismo e outros ismos), além de pintores judeus e comunistas.
Seriam todos propagadores de uma estética “impura” que o Führer, um adepto do ideal clássico, fez questão de rebaixar, ao expor em Munique quadros mal pendurados por cordas e sem molduras, em 1937, e persegui-los a partir de então, fazendo da caça a expressões diversas da criatividade uma política de Estado.
Foi no desenrolar da II Guerra que a afronta a tão valioso patrimônio ganhou corpo por razões não apenas ideológicas, como também de natureza prática.
Ao pilhar museus Europa afora e saquear abastados lares judaicos, os nazistas queriam, sim, tirar de circulação o que viam como aberração, mas também vender o que surrupiavam com o propósito de financiar a máquina bélica.
O trabalho de definir o destino de cada quadro, cada escultura era meticulosamente feito em instituições como o Jeu de Paume, o museu que à época abrigava em Paris o melhor do impressionismo, ocupado pelas tropas de Hitler em 1940.
Ficou conhecida a triagem que fizeram por lá: uma parte das 22 000 obras-primas foi destruída, a outra, vendida, enquanto uma leva foi separada para um futuro museu (jamais erguido) em Linz, na Áustria, onde a aterradora figura que capitaneou o Holocausto passou a juventude.
Saldo: mais de 600 000 pinturas tomadas à força naqueles sombrios anos.
CADÊ O DONO? - Sainte-Victoire, de Cézanne: em destaque no Orsay The Courtauld/.
Os esforços para recuperar o que restou da preciosa coleção jamais cessaram.
Agora, duas iniciativas na França, onde a ferida da guerra nunca cicatrizou de todo, tamanho o incômodo deixado pelo período de colaboracionismo e pela tomada de Paris, cutucam o tema.
A ideia de ambas é que, ao fim, os itens sejam devolvidos a quem de direito.
Não por coincidência despontaram na cena cultural ao mesmo tempo — uma lei aprovada em 2023 facilitou de modo decisivo a entrega do que foi roubado, tanto a instituições como aos familiares dos antigos donos.
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