Haitianos deportados pela administração de Donald Trump chegam a seu país sem pertences e sem ter para onde ir
O voo de deportados haitianos vindo da Flórida, nos Estados Unidos, previsto para pousar ao meio-dia, ainda não despontou no céu quando encerra o expediente dos funcionários do Ofício Nacional de Migração. A maioria volta para suas casas; só ficam uns poucos de plantão à espera de 71 conterrâneos expulsos dos EUA.
Já é noite quando o avião finalmente pousa na pista. Mas, em vez de 71, são 82 pessoas chegando, com fome e cansadas. Ficaram esse tempo todo algemadas nas mãos e nos pés. Entre elas, homens, mulheres que não se conhecem, uma pessoa doente e uma mãe com bebê no colo. Não há iluminação pública na cidade. E nem para onde ir.
Conforme anunciado pelo governo de Donald Trump, um voo por semana tem pousado no aeroporto internacional de Cabo Haitiano desde meados de agosto, trazendo de volta mais de 400 migrantes. Se aquele chárter do dia 10 de setembro criou uma confusão maior, deixando a administração local completamente desamparada, todos repetem a mesma falta de planejamento e de respeito aos direitos fundamentais dos passageiros.
No total, são mais de 330 mil haitianos que perderam o Estatuto de Proteção Temporária (TPS) e, com ele, a garantia de permanência e trabalho nos Estados Unidos, podendo ser deportados a qualquer momento. Katia Bonté, coordenadora do Grupo de Apoio aos Repatriados e Refugiados (Garr), tem acompanhado com muita preocupação esses últimos acontecimentos, junto com uma rede de organizações estadunidenses.
“Eles estão prendendo as pessoas na rua, no trabalho, em qualquer lugar […], e para levá-las a um centro de detenção”, denuncia ao Brasil de Fato . “Ou seja, as pessoas nem podem pegar suas coisas pessoais! Elas são presas e depois deportadas com o que elas têm naquele momento. E temos depoimentos de pessoas que dizem que estavam com celular e que o celular lhes foi retirado na hora da detenção. Então, estão chegando aqui sem nada.”
Nos Estados Unidos, a perseguição dos migrantes se tornou uma verdadeira bandeira ideológica do governo de Donald Trump, a ponto de sua administração se promover com imagens que vangloriam a violação de direitos. Em 28 de agosto, o Departamento de Segurança Interna (DHS) publicou em redes sociais um vídeo mostrando haitianos acorrentados e algemados, cabisbaixos, debaixo de uma chuva forte, em fileira indiana, esperando para subir no avião e serem deportados. A poucos dias da data que celebra a abolição da escravidão no Haiti, em 22 de setembro de 1793, o sadismo por trás dessas imagens tem uma ressonância ainda mais cruel para os conterrâneos dessas pessoas.
O TPS é um estatuto que se aplica, nos Estados Unidos, a migrantes cujo país de origem está passando por uma guerra civil, uma epidemia, um desastre ambiental ou alguma outra condição que ameaça a vida dos cidadãos. Foi em janeiro de 2010, depois do terremoto que destruiu boa parte da capital, Porto Príncipe, causando cerca de 300 mil mortes e 1,5 milhão de desabrigados, que ele passou a ser outorgado aos haitianos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.brasildefato.com.br — o conteúdo pertence a Brasil de Fato.