O que levou 53 milhões de chineses aos aplicativos de trabalho
A desaceleração da economia chinesa está pressionando o mercado de trabalho e ampliando a dependência de empregos temporários e por aplicativo, segundo reportagem do Financial Times (FT). O fenômeno ocorre após anos de crise imobiliária, consumo fraco e crescimento aquém do padrão histórico do país.
Mesmo sem estatísticas oficiais detalhadas sobre subemprego, sinais de saturação já aparecem em setores como o transporte por aplicativo e as entregas. Motoristas de táxi e de plataformas relatam ao FT longas jornadas e queda de renda. Segundo o Centro de Pesquisa sobre Novas Formas de Emprego da China, mais de 53 milhões de pessoas trabalhavam como entregadores ou motoristas de aplicativo em 2025. O número cresceu em cerca de 10 milhões em apenas dois anos.
O mesmo centro estima que o emprego flexível, categoria que inclui trabalho temporário, autônomo e atividades de plataforma, chegará a 320 milhões de pessoas neste ano. Em 2024, eram 280 milhões.
Trabalhadores na China: as demissões, assim como outros episódios referentes à economia, tornaram-se assuntos sensíveis do ponto de vista político (Gilles Sabrié/The New York Times) (Gilles Sabrié/The New York Times)
Economistas afirmam ao FT que a expansão da chamada gig economy - um fenômeno no mercado de trabalho em que trabalhadores preferem empregos temporários, flexíveis, de freelancer ou até informais em vez de empregos tradicionais integrais - deixou de ser apenas uma válvula de escape para o desemprego.
Em várias cidades, a oferta de trabalhadores já supera a demanda por corridas e entregas.
A cidade de Shenzhen, por exemplo, declarou formalmente, em junho, que o mercado de transporte por aplicativo estava saturado. Outras administrações locais também relataram excesso de motoristas cadastrados nas plataformas.
O crescimento econômico perdeu força em indicadores como o investimento, as vendas no varejo e a confiança do consumidor: a percepção de piora nas perspectivas de emprego tem pesado sobre o consumo das famílias.
Apesar disso, a taxa oficial de desemprego urbano permanece próxima de 5% há anos. Todavia, especialistas afirmam que o dado não captura trabalhadores subempregados, desalentados ou que retornam ao interior do país.
A força de trabalho chinesa vem encolhendo desde o pico registrado em 2015, quando superava 800 milhões de pessoas. Em tese, a redução da oferta de mão de obra deveria pressionar os salários para cima.
O que ocorre, porém, é o contrário: consumo fraco, risco de deflação e desaceleração dos salários urbanos. Em 2025, uma das medidas de crescimento salarial caiu para 3,4%, o menor nível da série histórica.
Analistas do HSBC avaliam que a demanda por trabalho está caindo mais rapidamente do que a oferta de mão de obra. Entre os fatores citados estão a automação industrial, a crise imobiliária e o avanço da inteligência artificial.
Trabalhadores de aplicativos de delivery na China: setor se torna alternativa tão valiosa que mercado está se saturando (Beiyi SEOW, ZHANG Yuanhao) (Beiyi SEOW, ZHANG Yuanhao/AFP)
O mercado de entregas mostra sinais claros da perda do poder de compra das famílias chinesas.
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