Enquanto todos jogavam fora o bagaço do vinho, estes cientistas brasileiros decidiram transformar o resíduo em fertilizante para uma flor comestível
Pesquisadores brasileiros ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e à Universidade Federal do Paraná (UFPR) encontraram uma forma de transformar um dos principais resíduos da produção de vinho em insumo para o cultivo de flores comestíveis.
O bagaço da uva, rico em nutrientes que podem ser empregados na cadeia dos biofertilizantes, foi submetido pelos pesquisadores à digestão anaeróbia para produzir um digestato aplicado no cultivo da calêndula Calendula officinalis L., conhecida na pesquisa como cultivar Pôr do Sol.
O tratamento com bagaço de uva foi capaz de modificar a composição bioquímica das flores, de acordo com o artigo publicado na revista científica ACS Omega .
Os pesquisadores também observaram aumento de compostos fenólicos, carotenoides, proteínas, lipídios e açúcares solúveis em diferentes combinações de tratamento.
O ponto de partida da pesquisa foi um material que normalmente tem baixo valor agregado, o bagaço de uva, formado por cascas, sementes e partes do engaço que permanecem depois do processamento da fruta para a produção de vinho.
Segundo o artigo, o resíduo representa cerca de 20% a 25% da massa das uvas processadas e corresponde a uma geração mundial de 9 milhões a 13 milhões de toneladas por ano.
Ele ainda concentra parte importante dos compostos presentes na uva e, por isso, pode apresentar potencial para aplicações que vão muito além do descarte ou do uso como alimento animal.
De acordo com a Embrapa, o resíduo da vinificação tem diversas substâncias bioativas que atuam como antioxidantes e é rico em fibras e compostos fenólicos, além de apresentar potencial para a produção de corantes e antioxidantes naturais, alimentos funcionais e produtos não alimentícios.
Para tornar o bagaço em alimento para as flores, foi necessário provocar no material a digestão anaeróbia, processo biológico no qual microrganismos degradam matéria orgânica em ambiente sem oxigênio e que permite recuperar mais de um produto da biomassa.
Durante o processo, parte da matéria orgânica é convertida em biogás, enquanto o material remanescente, conhecido como digestato, conserva nutrientes que podem ser aproveitados posteriormente.
No experimento, o digestato foi produzido em um reator de 4,3 litros instalado no Laboratório de Bioengenharia e Tratamento de Água e Resíduos da FEA-Unicamp.
O equipamento operou por 40 dias, a 36 °C, em condições mesofílicas.
O substrato continha bagaço de uva seco, inóculo de um reator anaeróbio e água.
Outro projeto associado, o processo FAPESP 24/10205-3, tem como objetivo estudar a produção, captura, purificação e armazenamento de biogás para aplicações como hidrogênio verde, biometano e CO₂ biogênico.
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