O nó górdio de 2027: evitar a recessão e arrumar as contas públicas
A agenda econômica para 2027 já começou a ser construída nos bastidores. De um lado, os membros da equipe econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva falam em responsabilidade fiscal e mostram o que já foi feito desde 2023. De outro, os demais candidatos apontam caminhos e criticam os juros, os gastos públicos e a dívida.
No fundo, uma leitura instigante é a revelação de um consenso: o próximo ano será de arrumação, não de expansão. Pouco importa se por força da convicção ou da necessidade mimetizada nos juros estratosféricos.
Mas como calibrar a necessidade do ajuste fiscal ao objetivo, igualmente importante, de bloquear uma desaceleração agressiva da atividade econômica? Na verdade, são objetivos (e tarefas) interdependentes, como quase sempre ocorre na economia.
A percepção de que as coisas começam a cheirar mal, com possibilidade de desaceleração contínua da atividade econômica, sob juros persistentemente altos, espalha-se; isso não ajuda. Ela se alia à avaliação de que as contas públicas precisam voltar ao positivo e a dívida, estacionar.
Providências mais concretas e perenes para arrumar as contas públicas, abrangidas em um plano de voo para quatro anos, poderiam desfazer o nó e desanuviar as coisas. Em contexto de desaceleração da atividade, a tarefa é muito mais complexa.
O tempo é o maior inimigo, porque ao risco fiscal, senhor dos juros altos (concorde-se ou não), soma-se esse evidente risco de recessão, para o qual venho chamando a atenção há um bom tempo.
Não vamos tapar o sol com a peneira: a meta de inflação, ingrediente perigoso, precisa ser reavaliada, mas, antes, será preciso endereçar o plano de reorganização das contas públicas e reequilibrar a dívida em relação ao PIB. Sem isso, mudar a meta seria um tiro no pé, porque os juros precificados pelo mercado subiriam, as expectativas de inflação saltariam e o caldo entornaria rapidamente. As ações têm de ser coordenadas, porque a ordem dos fatores poderia alterar o produto.
Pois bem. Muito se tem falado sobre o risco fiscal. A dívida acima de 80% do PIB, elevada e crescente, e o déficit público projetado para 2026 (em 9% do PIB) pressionam os juros. Mas há outro risco no radar: a possibilidade de recessão. Como resolver, conjuntamente, esses problemas?
Sabe-se que, no curto prazo, o ajuste fiscal é contracionista (tira fôlego do PIB). Combinado com uma taxa de juros real astronômica (como a atual), levaria a economia para uma recessão braba em 2027. Mas escapar do ajuste não é uma opção. Será preciso dosar os medicamentos com a precisão de um neurocirugião. Nisso, economistas importam. Mas, mais relevantes, os políticos.
A precificação de risco fiscal é real. Ela turbina os juros dos títulos públicos e desperta reflexões até mesmo sobre a insolvência do Estado ou coisa parecida. Não importa muito se o governo concorda ou não com as avaliações mais pessimistas.
Eu, por exemplo, tenho argumentado que não existe tal risco no curto prazo. O calote, a quebra, o não pagamento ou o default, como preferir, não está posto.
O caixa do Tesouro é gigantesco, com uma reserva de liquidez igualmente elevada.
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