No Oiapoque, o petróleo alimenta sonhos e temores
Com o olhar preocupado, o cacique Wagner Karipuna contempla o rio tranquilo que atravessa sua aldeia na floresta amazônica: ele teme uma "infelicidade imensa" caso ocorra um vazamento de petróleo.
Sua aldeia, Mangá, fica a cerca de 20 quilômetros do centro do Oiapoque, uma cidade na fronteira com a Guiana Francesa que vive um momento de efervescência desde que, há um ano, a Petrobras iniciou sua exploração offshore nesta área.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tentará a reeleição em outubro, foi logo em seguida ao local, classificando este petróleo como o "passaporte para o futuro".
Para chegar ao Oiapoque é preciso percorrer cerca de 600 km a partir de Macapá, capital do estado do Amapá, parte deles por uma estrada de terra vermelha esburacada, com pontes de madeira para atravessar os riachos.
Muitas ruas não têm calçada e são ladeadas por prédios baixos com fachadas muitas vezes deterioradas, embora haja muitas obras em andamento.
Embora muitos habitantes do Oiapoque estejam entusiasmados ao pensar na perspectiva de benefícios econômicos, Wagner Karipuna diz estar "bastante preocupado".
"Se ocorrer um vazamento, então com certeza isso vai afetar. A água não tem fronteira", afirma o cacique de 57 anos, imaginando o pesadelo de ver manchas de petróleo arrastadas pela maré até o rio Curipi, que banha sua aldeia de 1.800 habitantes.
Sobre o risco de vazamento, a Petrobras declara que os resultados de suas pesquisas "indicam que não há probabilidade de toque na costa".
Entretanto, "não existe exploração offshore com risco zero", disse à AFP Jean Paul Prates, que presidiu a empresa entre 2023 e 2024 e é o atual chairman do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne).
"Trata-se de um risco de baixa probabilidade, mas potencialmente de alta consequência", acrescenta.
Wagner Karipuna conta estar "decepcionado" com Lula, que se apresenta como defensor do meio ambiente e dos povos originários. O presidente diz que o dinheiro do petróleo permitirá financiar a transição energética.
O cacique afirma, por sua vez, que "os impactos já estão acontecendo", citando o "barulho de helicóptero" e de "aviões" todos os dias, o que provoca a fuga das aves e da fauna em geral.
Suas preocupações são compartilhadas por Joelso Mendonça, vice-presidente da colônia de pescadores Z03 do Oiapoque, que conta com cerca de 400 pessoas da região.
"Se houver vazamento, ninguém vai querer comprar um pescado de uma área afetada por petróleo", teme o homem de 50 anos, que conserta sua rede em uma estrutura de madeira sobre palafitas às margens do rio.
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