Mulheres negras relatam trajetórias marcadas por dificuldades na carreira acadêmica
A presença de mulheres negras na produção científica brasileira cresceu nos últimos anos, impulsionada por políticas de ações afirmativas e pela ampliação do acesso ao ensino superior. Ainda assim, a permanência na carreira acadêmica continua marcada por barreiras como o racismo, a desigualdade no acesso a bolsas de pesquisa, a sobrecarga de trabalho e o baixo reconhecimento.
A trajetória da professora da Universidade de Brasília (UnB) Renísia Garcia ajuda a entender por que tantas mulheres negras ainda precisam transformar obstáculos em combustível para seguir na academia. “Nós, periféricos e negros, e negras, não tínhamos sonhos, tínhamos metas. Eu sempre trabalhei e sempre estudei. Gostava muito de ler e foi essa junção entre gostar do que fazia e estudar muito que me levou para a universidade. Foi um percurso de persistência”, relembra a pesquisadora.
Filha de uma família trabalhadora, Garcia começou a trabalhar ainda na adolescência e conciliou emprego e estudos durante boa parte da juventude. A pesquisadora afirma que chegar à universidade nunca foi um caminho natural para pessoas negras e periféricas, mas resultado de um esforço contínuo para permanecer estudando e romper barreiras impostas por desigualdades.
A historiadora e também professora da UnB, Renata Melo, conhece de perto os desafios enfrentados por mulheres negras na academia. O incentivo aos estudos veio ainda na infância, dentro de casa, mas permanecer na universidade exigiu superar dificuldades financeiras e enfrentar barreiras impostas pelo racismo estrutural.
“Para nós, negros e negras, não há outro caminho senão a educação. Historicamente, ela nos foi negada e a nossa humanidade também foi colocada em xeque, como se fôssemos incapazes de elaborar conhecimento. Por isso, a pesquisa sempre foi mais do que uma profissão, foi uma necessidade”, afirma.
Ao longo da graduação e da pós-graduação, a pesquisadora precisou conciliar trabalho e estudos para seguir na vida acadêmica. “Um dos maiores desafios foi fazer tudo isso sem recursos. Eu consegui acessar uma bolsa de doutorado quase no final da pesquisa.
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