Fernanda Torres e o ano do influenciador intelectual
Fernanda Torres odeia fazer escova no cabelo e ama ler. Quem acompanha a atriz, e seu bom humor, sabe bem. Daí a genialidade que é o "Literatura sem Escova", uma série de vídeos que ela recém criou em seu Instagram para recomendar algumas obras de sua biblioteca pessoal (ela já fazia alguns em 2024, quando abriu o TikTok). Ali, Nanda aparece sem produção, sem cabelo feito, óculos escuros, falando de livro do jeito que se fala com um amigo na cozinha. Despojada, natural, e com a autoridade de quem é do ramo: não é só atriz premiada, mas romancista com Jabuti no currículo e cronista de mão cheia.
No primeiro vídeo, depois de assistir ao filme "Odisseia", ela recomendou um livro de nome pouco convidativo: "1177 A.C: O Ano em que a Civilização Colapsou", do arqueólogo Eric Cline, sobre o desmoronamento das sociedades da Idade do Bronze. Em poucos dias, a obra entrou para a lista de mais vendidos de não ficção da revista "Veja".
Isso vale uma pensata: num tempo de fadiga digital e ansiedade sobre o futuro, milhares de pessoas correram para comprar um calhamaço sobre como civilizações interconectadas desmoronam. E a Fernanda, sem saber ou sem querer, embarcou numa das tendências mais faladas do momento lá fora.
É que dizem que 2026 é "o ano do influenciador intelectual". A revista "Vogue" o define como um criador que se destaca não pela aparência ou pelo estilo, mas pelo que sabe, pela expertise, pela obsessão por um assunto e pela capacidade de ter uma opinião informada. E falar sobre literatura é o ápice deste movimento. Não é coincidência que a inteligência tenha virado desejável exatamente agora. Vivemos soterrados pelo que já chamam de AI Slop : a enxurrada de conteúdo gerado por inteligência artificial, que é algo rápido, mastigado, infinito e vazio. Qualquer um produz, em segundos, um carrossel bem-formatado dizendo nada. Um estudo recente das universidades de Cornell e Minnesota mostrou que o número de lançamentos de livros triplicou entre 2022 e 2025, no embalo dos modelos de inteligência artificial. Livros feitos com IA já são mais da metade dos lançamentos. O escritor americano Daniel Pink resumiu o paradoxo numa frase: "um mundo de mais coisa é, inevitavelmente, um mundo de mais coisa ruim. E o bom gosto é o único antídoto".
Não é por acaso que gravar um vídeo de cara limpa com pensamento crítico de verdade (uma opinião que só aquela pessoa, com aquela bagagem, poderia ter) virou a única coisa que a máquina ainda não fabrica barato. O pensamento humano original passou a ser um bem escasso. E bem escasso, na lógica do mercado, sempre foi tratado como luxo.
O influenciador intelectual é, no fundo, o oposto exato do consumidor que exibe o que comprou. Ele não mostra a bolsa nova, mostra o que leu. É o quiet luxury aplicado ao cérebro: Dua Lipa puxou esse bonde ao criar o clube de leitura Service95, que hoje virou plataforma de mídia e até livraria pop-up no Porto, Portugal, com obras apenas de autoras censuradas.
Pois numa economia que sequestra a nossa atenção em fatias de quinze segundos, ler um livro de papel virou uma ostentação silenciosa. Ostenta-se, ali, as duas coisas mais caras que existem hoje: tempo e atenção.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.