Disputa no delivery acende alerta para atuação preventiva do Cade
O impacto negativo para restaurantes e entregadores durante a recente disputa no mercado de delivery e o histórico de expansão internacional de plataformas asiáticas serve de alerta: o Brasil ainda tem tempo de agir de forma preventiva contra a prática de preços predatórios no setor.
Esse diagnóstico consta no estudo “Dinâmica concorrencial, subsídios agressivos e regulação ex-ante no mercado de delivery de comida: lições globais e o papel do Cade no Brasil”, do Instituto Esfera de Estudos e Inovação, frente acadêmica do think tank Esfera Brasil, realizado em parceria com o iFood.
O documento chega em um momento sensível para o mercado brasileiro que vem sendo alvo de aportes bilionários de empresas estrangeiras direcionado sobretudo a campanhas promocionais e à conquista de participação de mercado.
A Keeta, controlada pela chinesa Meituan, por exemplo, chegou ao país com um programa de aportes de R$ 5,6 bilhões até 2030, enquanto a 99Food, do grupo Didi, anunciou um plano de investimentos de R$ 2 bilhões até o fim de 2026.
Para evitar que esse capital desequilibre o setor de delivery de forma irreversível, o diretor acadêmico do Instituto Esfera, Fernando Meneguin, doutor em Economia pela Universidade de Brasília (UnB) com pós-doutorado na Universidade da Califórnia-Berkeley, defende que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tome medidas.
Segundo ele, a análise antitruste precisa considerar o momento do ciclo de vida da plataforma.
Na entrada em um novo mercado, incentivos financeiros cumprem papel legítimo para atrair usuários e alcançar a escala mínima de operação.
A conduta muda de natureza, pondera Meneguin, quando a empresa já atingiu esse patamar e continua injetando recursos desproporcionais aos seus custos reais para excluir concorrentes.
Os números que sustentam essa tese vêm da China, onde o fenômeno batizado de “bolha de cupons” ganhou escala a partir de 2025, em meio a uma guerra de descontos entre as principais plataformas do país.
Um estudo da Universidade Fudan, conduzido pelos economistas Zhang Jun e Hu Bo com mais de 40 mil estabelecimentos, mostrou que o volume médio diário de pedidos dos restaurantes subiu 7% no auge da disputa, mas a receita efetiva caiu 4% e os lucros recuaram 8,9%.
Um levantamento paralelo da consultoria Lixin Consulting, com 2 mil restaurantes, apontou que 80% relataram queda acentuada no lucro líquido durante campanhas de cupons e descontos, com redução superior a 30% em 35% dos casos.
O efeito se repetiu entre os entregadores.
A remuneração básica por corrida, que variava entre 6 e 9 yuans (R$ 4,60 a R$ 6,90), chegou a menos de 2 yuans (R$ 1,50) em trajetos curtos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.jota.info — o conteúdo pertence a JOTA.