Entre o abismo e a esperança
Ana Cláudia, mãe de duas filhas, foi sequestrada pelo ex-companheiro após deixar a mais nova na escola.
Na sequência, o monstro a jogou de um paredão na Serra do Rola-Moça, em Minas Gerais.
O nome do local é significativo.
Reza a lenda que, num passado remoto, dois jovens recém-casados viajavam a cavalo para a Lua de Mel quando, em trecho de estreito caminho serrano, um pisão em falso do equino fez a noiva se despenhar em profundo grotão.
O noivo, desesperado, teria se atirado em seguida, com montaria e tudo, conforme o causo foi recontado por Mario de Andrade, em seu poema “Noturno de Belo Horizonte”, de 1924.
Passados 102 anos da publicação, retrocedemos em termos de figura masculina “desejável”, do noivo (apaixonado ao ponto do suicídio), para o cavalo do causo, encarnado no misógino e recalcado Flavio Bolsonarinho.
As bestas-feras cobiçam o Palácio do Planalto tendo na cabeça da chapa esse senador Incitatus que se acidentou de quadriciclo ao perseguir e assediar uma mulher que corria na Praia da Taíba, em São Gonçalo do Amarante, CE.
Trata-se do mesmo personagem que diz ter “feito” duas filhas para “cuidarem dele na velhice”, e que desdenha da Lei Maria da Penha – uma das mais avançadas legislações de proteção à mulher no Planeta -, para ele “um pedaço de papel”.
Eliminem leituras ingênuas sobre o significado do “pedaço de papel” que ultrapassou a barreira do freio de dentes de Bolsonarinho.
Ele não se referia à “luta pelo direito posto”, que sucede à “luta para pôr o direito”.
Sua cultura jurídica, rábula de pouca prática e ainda menores estudos, não vai a tanto.
É, sim, puro e simplório desprezo.
Bolsonarinho, como bom fascista, deprecia construções civilizatórias e propõe, no “enfrentamento” à violência contra a mulher, a panaceia que sua ideologia apresenta ante qualquer questão e conflito social: mais violência.
Se dispõe a abordar o problema com doses maiores da causa do problema.
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