R$ 24 bilhões. O que o iFood está enxergando que talvez a gente não esteja?
Fui convidado esta semana para palestrar no iFood Move, o maior encontro de restaurantes da América Latina, que nesta edição trouxe também uma novidade: apresentar as outras categorias como farmácia, mercado, shopping e setor pet. Mais de 12 mil pessoas passaram pelo evento, em São Paulo, para discutir o presente e, principalmente, o futuro do setor.
Saí de lá com duas impressões aparentemente contraditórias sobre um mercado em que trabalho há mais de três décadas. A primeira é de entusiasmo. Conversei com empresários que estão crescendo muito, abrindo lojas, fortalecendo marcas e aprendendo a usar o delivery não apenas como um canal de vendas, mas como uma ferramenta de crescimento.
A segunda impressão é de preocupação. Ouvi empresários falando de margens mais apertadas, aumento dos custos da operação, dificuldade de encontrar e reter pessoas e, principalmente, do desafio de crescer sem perder rentabilidade.
E há preocupações com o que ainda está por vir. O food service é intensivo em mão de obra. Por isso, as discussões sobre mudanças na jornada de trabalho são acompanhadas com atenção. Se uma eventual mudança elevar significativamente o custo de pessoal sem ganho correspondente de produtividade, a conta precisará fechar em algum lugar. Margem, preço, emprego ou expansão.
A reforma tributária traz outra preocupação. Pesquisa da Abrasel divulgada em agosto mostrou que seis em cada dez empresários do setor ainda não se sentem preparados para as mudanças.
E há uma equação simples que não pode ser ignorada: se a nova estrutura representar aumento da carga tributária para parte dos restaurantes, dificilmente esse custo ficará apenas dentro das empresas. Num setor que já trabalha com margens apertadas, parte dele tende a chegar aos preços. Com alimentação mais cara, o consumo pode sentir. E, quando o consumo cai, toda a cadeia sente.
Essa talvez seja a fotografia mais honesta do food service brasileiro hoje. Não está tudo bem. Mas também está muito longe de estar tudo mal. Existe gente sofrendo. E existe gente voando. Existe pressão sobre margem. E existe uma oportunidade enorme ainda a ser capturada. Foi pensando nessa contradição que um número anunciado durante o Move me chamou particularmente a atenção: R$ 24 bilhões.
É outra: Que oportunidade ela está enxergando? Parte da resposta talvez esteja no tamanho do mercado que ainda não capturamos.
Segundo a última Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, 67% dos gastos das famílias brasileiras com alimentação acontecem dentro de casa. Cerca de 33% acontecem fora. O dado é de 2017 e 2018 e, portanto, precisa ser lido com essa ressalva. Mas revela uma característica estrutural importante do nosso mercado.
Dois em cada três reais gastos com alimentação ainda ficam dentro de casa. A distância entre o que esse mercado é hoje e o que ele ainda pode ser ajuda a explicar o tamanho da oportunidade. E ela não está apenas no delivery. Está em novos momentos de consumo, na conveniência e na possibilidade de usar tecnologia para aumentar a produtividade.
Há 15 anos, seria difícil imaginar o tamanho que o delivery teria hoje. Para muitas empresas, ele era apenas mais um canal de vendas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.